Blog de clovis.heberle


STILL CRAZY, AFTER ALL THESE YEARS*

 

Da esquerda para a direita: Clóvis, Dedeco (Mário André Coelho de Souza)  e Pedro Port se reencontram, 30 anos depois da volta ao Brasil.

Um brinde à amizade - e à aventura de viver.

* Título de uma música de Paul Simon



Escrito por clovis heberle às 23h22
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NA BOLÉIA DE UM CAMINHÃO

     Aquele sotaque me chamou a atenção. O caminhoneiro sentado na banqueta da lanchonete que pedira um bauru só podia ser gaúcho.

     Já tínhamos almoçado, e depois dos meus agradecimentos e das despedidas fiquei perto da porta observando o cara. Estava acompanhado de um colega, e os dois se encaminharam para dois caminhões estacionados perto do posto. Olhei as placas: eram do Rio Grande do Sul. Sim, estavam indo para Porto Alegre. Sim, me dariam carona até lá. E me fizeram uma proposta de, digamos, trabalho. Em troca do transporte e da alimentação, eu teria que mantê-los acordados durante o trajeto. Estavam vindo de Recife, e teriam que chegar até a  noite do dia seguinte para entregar a carga. Se sentiam muito cansados, dirigindo até 18 horas por dia, e temiam cochilar ao volante e se acidentar.

    Foi uma maratona contra o sono. De três em três horas eu trocava de caminhão. E conversava sem parar, para manter a atenção dos motoristas. Ouvi as histórias deles – a saudade de casa, os problemas de relacionamento com a mulher e os filhos por causa das ausências prolongadas, as exigências cada vez maiores das empresas para a entrega das cargas em prazos curtos, mesmo que isto significasse jornadas de trabalho extenuantes. 

   Admirando a paisagem vista da boléia, contei a eles a história da minha vida - a infância em Três Passos, lá no noroeste do Rio Grande, perto da fronteira com a Argentina. As pescarias com amigos nos riachos das redondezas; os piqueniques de fins de semana com a família nos rios Turvo e Uruguai; a vinda para Porto Alegre, aos 13 anos de idade; a militância no POC, o Partido Operário Comunista, ainda na escola secundária; o vestibular de Jornalismo  e, claro, as aventuras dos últimos meses.

   No primeiro dia viajamos 12 horas, só parando para dormir à uma da manhã. Me acomodei embaixo da lona de um dos caminhões com o meu “space blanket”, o cobertor de astronauta. No dia seguinte, mais 11 horas de estrada e chegamos, sãos e salvos.

  No portão da casa de meus pais, a música do Roberto Carlos que tanto me emocionara da rodoviária do Rio ainda ressoava nos meus ouvidos:

   Debaixo dos caracóis dos teus cabelos,

 uma história para contar, de um mundo tão distante...

  Debaixo dos caracóis dos seus cabelos
  Um soluço e a vontade
  De ficar mais um instante    




Escrito por clovis heberle às 22h12
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PICO DAS AGULHAS NEGRAS

Com 2791,55 metros de altura, é a quinta montanha mais alta do Brasil. O parque nacional de

 Itatiaia fica entre os estados do Rio, São Paulo e Minas Gerais, na Serra da Mantiqueira.



Escrito por clovis heberle às 00h46
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DE VOLTA À ESTRADA

 

    Sol, calor, cheirinho de café, de Brasil. Voltei à estrada descansado, animado. Só 1.500 quilômetros me separavam de Porto Alegre. Passou meia hora e nada de alguém me dar carona. Ninguém parava. Os motoristas fingiam não me ver. Aí tive uma idéia: com a mão direita agitava o polegar e com a esquerda mostrava o passaporte. Deu certo. Uma camionete com quatro rapazes parou. Eles estavam indo acampar no parque nacional de Itatiaia, onde fica o Pico das Agulhas Negras, e poderiam me deixar em Resende, a 300 quilômetros dali, de onde subiriam para as montanhas.

    Cariocas, de classe média alta, estudantes universitários em férias, acharam muito divertida a minha história. Conversamos animadamente, e as quatro horas de viagem passaram rápido. Paramos para abastecer perto de Resende, e no posto havia um restaurante com o estacionamento lotado. Bom sinal. Passava do meio dia, e eles decidiram almoçar ali. “Você é nosso convidado, deve estar com saudade da comida brasileira”.

     Filé com fritas, arroz, feijão, salada de alface, tomate e cebola, cerveja Brahma. O paraíso...




Escrito por clovis heberle às 00h31
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NERVOUS BREAKDOWN

 

      Alguns dias antes de voltar vendi meu saco de dormir, companheiro de 210 noites, numa loja de artigos de caça e pesca de Otavalo. Sleeping bags eram raros e caros no Equador, e o dono da loja pretendia usá-lo em suas pescarias – depois de uma boa lavada.

     Foi com parte dos sucres obtidos dessa venda, transformados em dólares no aeroporto de Quito e em cruzeiros no do Galeão, que fui de ônibus até a estação rodoviária Novo Rio. No meio do burburinho de milhares de viajantes, os alto-falantes tocavam "debaixo dos caracóis dos teus cabelos/ uma história pra contar/ de um mundo tão distante". Foi a primeira vez que ouvia a música, sucesso da época. Composta por Roberto Carlos para Caetano Veloso, a letra falava da volta dele do exílio, e se encaixava na minha condição de recém-chegado ao meu país - com muitas histórias para contar.

       Depois de fazer um lanche, comprei uma passagem até a cidade mais distante que as minhas minguadas economias permitiam: Nova Iguaçu, na Via Dutra. Eu queria pegar a estrada, mesmo já sendo noite.

     Desci num posto de gasolina, na esperança de encontrar alguém que estivesse indo para o sul. Não custei a me dar conta de que alí, na baixada fluminense, ninguém daria carona a um desconhecido, ainda mais à noite. Decidi achar algum lugar onde pudesse pernoitar. Caminhei em direção ao centro da cidade, cada vez mais amedrontado e arrependido de ter saído do Rio. Na rodoviária daria para ficar num banco, com alguma segurança, até amanhecer.  Naquela cidade da baixada, com a minha pinta de gringo,  eu era um alvo tentador para qualquer vagabundo que tivesse um canivete.

    Passei na frente de uma igreja com uma escola ao lado. Havia luz lá dentro. Bati e um padre abriu uma fresta da porta. Expliquei que era brasileiro recém chegado de uma longa viagem pelo exterior, estava muito cansado e precisava de um lugar para dormir. Ele me deixou entrar e disse rispidamente que ali não era albergue.

    “Preciso apenas de um lugar para descansar sem ser assaltado. Saio de manhã cedinho, antes das aulas começarem”, argumentei.  Mas ele estava irredutível, já me empurrando para a porta. “ Não posso deixar um desconhecido ficar aqui, esta é uma cidade violenta, matam as pessoas por qualquer coisa. Procura outro lugar. Vai pra delegacia de polícia”.

    Aí eu tive uma espécie de colapso nervoso. Comecei a chorar e, aos soluços, perguntei que cristão era ele, negando abrigo a uma pessoa que só precisava de um canto para passar a noite. Depois do meu desabafo, ele mudou de atitude. Fechou a porta, me levou até uma sala de aula e só me pediu para sair logo que amanhecesse para que ninguém me visse.

    Fiz a cama no chão com as poucas peças de roupa que trazia e me cobri com um cobertor que havia ganho de um americano, de um tecido usado pelos astronautas. Feito de uma espécie de plástico aluminizado, retinha o calor do corpo. Exausto, dormi até clarear o dia.

Cumpri a minha promessa. Ninguém me viu sair.



Escrito por clovis heberle às 00h16
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SACOLEIRAS DE LUXO

 

Apesar de ser muito cedo – nem seis horas da manhã – a pequena sala de embarque lotou logo que o nosso vôo foi chamado. Duas coisas me chamaram a atenção nos passageiros embarcados na capital do Amazonas: quase todos eram mulheres, e levavam muitas caixas e sacolas com aparelhos eletrodomésticos.

Fui dos primeiros a entrar o avião. Me acomodei num banco da frente e assisti, entre divertido e espantado, a invasão de uma horda de senhoras e senhoritas, disputando espaço nos bagageiros e corredores para colocar a tralha, de tevês a ventiladores. Não demorei a conseguir a explicação: eram esposas, filhas e parentes de militares que iam até Manaus para comprar aparelhos na Zona Franca. Como as importações eram fortemente taxadas, quando não proibidas, elas conseguiam um bom dinheiro revendendo os badulaques, pois viajavam de graça nos aviões do CAN, sempre lotados no trecho Manaus-Brasilia-Rio.

O velho DC6 agüentou bem a longa viagem até Brasília, mas logo depois de parar no terminal da aeronáutica fomos avisados de que haveria uma parada por causa de problemas técnicos. Cansado e faminto (não havia serviço de bordo, lembram?), esperei três horas até a chamada para o reinício do vôo. Um dos pilotos disse que o motor consertado em Quito havia sido trocado. Não pifou na viagem por um milagre.

Nova decolagem, e no fim da tarde pousávamos no Rio.

Foi um vôo para me vacinar, definitivamente, contra o medo de viajar de avião.



Escrito por clovis heberle às 21h59
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SEIS HORAS SOBRE A AMAZÔNIA

De Guayaquil a Manaus foram seis horas de viagem. Durante cinco dessas longas horas a paisagem que eu via da janela era esta - floresta, floresta, floresta, e rios, abrindo caminho como serpentes. No entardecer eles se tingiram de dourado, contrastando com o verde cada vez mais escuro da mata. Um espetáculo inesquecível. Anoiteceu, e fiquei preocupado. E se o avião caísse na mata? (logo depois da decolagem eu havia notado que saía líquido da parte de cima de um dos motores - o que ficava do meu lado. Felizmente nada aconteceu. Pousamos em Manaus com noite fechada. Cochilei num banco do aeroporto até o amanhecer.     



Escrito por clovis heberle às 23h49
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UM VELHO DE GUERRA ENFRENTA AS MONTANHAS

 

    Uma semana depois, lá estava eu novamente no aeroporto, esperando o meu avião. Quando ele se aproximou e lentamente estacionou na frente da sala de embarque, senti um calafrio. Além de ser um modelo já fora de uso há muitos anos pelas empresas comerciais, estava com parte da fuselagem e das asas sujas de fuligem e óleo. A imagem era de dar medo.

    O DC6, quadrimotor a hélice com capacidade para 70 passageiros e velocidade máxima de pouco mais de 500 km/h, foi projetado pela norteamericana Douglas no final da década de 40 e brilhou na Guerra da Coréia, repetindo o sucesso de seu irmão mais velho, o bimotor DC3, na Segunda Guerra Mundial. Nos anos 60 já havia sido substituído pelos jatos DC8.

    Sentei numa poltrona vaga na janela, junto da asa. De lá, vi a fumaceira que saiu dos motores ao serem ligados. O barulho era muito forte, mas deu para ouvir o piloto dizer pelo alto-falante que nosso vôo para o Rio teria escalas em Guayaquil, no Equador, em Manaus, onde pernoitaríamos, e em Brasilia. Dois dias de viagem. E não haveria serviço de bordo.

    Uma barata passeava tranqüila pelo teto quando taxiávamos em direção à cabeceira da pista. No percurso, percebi que o aeroporto estava cercado de montanhas. Rezei para que os motores não falhassem na decolagem. E não falharam. Exigidos ao máximo, faziam toda a cabine vibrar. Conseguiram tirar o aparelho do solo pouco antes do final da pista. Mas aí surgiram as montanhas. Em vez de ganhar altura num ângulo próximo a 40 graus, como os jatos, o nosso DC6 subia lentamente, aos trancos. Olhei em volta, e os cerca de 20 passageiros (quase todos vinham de escalas anteriores) pareciam tão apavorados como eu. Até que passamos por cima de um cume, e o avião estabilizou. O ruído e os tremores diminuíram bastante. O resto da viagem até Guayaquil foi tranqüila, e decolamos sem sobressaltos ( a cidade fica ao nivel do mar) rumo a Manaus.



Escrito por clovis heberle às 22h06
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VIDA, DURA VIDA

       No dia marcado para o embarque, lá estava eu no aeroporto de Quito, com minha mochila e o violão. No guichê do CAN me deram uma ficha de papelão onde constavam os dados básicos - nome, destino, dia e horário da partida. Ansioso, fiquei colado ao vidro da sala de embarque, vendo a chegada e saída de aviões. Só que o meu não apareceu. Depois de uma hora, um funcionário informou que o vôo havia sido cancelado por problemas técnicos com a aeronave. A embaixada informaria qual a nova data do vôo.  

         Resignado, voltei para Otavalo. 

         A decisão de voltar foi tomada por mim sem discussões, numa das minhas caminhadas matinais. Eu me sentia cansado daquela vida de cantar, ganhar moedas, comer, dormir, cantar de novo, ganhar moedas, cantar, cantar.  A minha fome já não era mais saciada depois de uma refeição. Endêmica, me acompanhava ao longo dos dias. Já não havia mais sentido em continuar. Por mais que fumasse, não conseguia mais delirar com lances mágicos que me levassem à Califórnia, à Europa, a cruzeiros em navios pelo mundo. A real era que estava na hora de recomeçar. A faculdade, a carreira de jornalista, a vida. A dura vida no Brasil da ditadura militar.    



Escrito por clovis heberle às 23h33
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DC6-B

O DC6-B, QUADRIMOTOR DA DÉCADA DE 1950, AINDA ERA USADO PELO CORREIO AÉREO NACIONAL

NO INÍCIO DOS ANOS 70. NA ÉPOCA, AS EMPRESAS AÉREAS JÁ OPERAVAM COM AVIÕES A JATO, POIS 

AERONAVES A HÉLICE ERAM ANTIECONÔMICAS, LENTAS E INSEGURAS.



Escrito por clovis heberle às 20h57
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NAS ASAS DO CAN

 

    “Sou brasileiro e não tenho condições de comprar uma passagem para voltar para o meu país. Quero ser repatriado.”

     Não foi preciso argumentar, nem pedir ou implorar – eu estava preparado inclusive para aceitar a pena da perda do direito a um passaporte, imposta aos repatriados. O secretário da embaixada brasileira em Quito, um senhor alto e magro, óculos de lentes grossas, me interrompeu e explicou, com a calma dos diplomatas entediados, que a solução para o meu caso era bem mais simples. Dali a duas semanas chegaria à capital equatoriana um avião do Correio Aéreo Nacional (CAN) , da Força Aérea Brasileira, que todos os meses pousava nas capitais dos países dos três continentes para transportar as malas postais oficiais até Brasília e o Rio de Janeiro. O avião tinha poltronas, e ele não só poderia me conseguir um lugar como me dar uma ajuda em dinheiro para me manter até o embarque. Preencheu o formulário de embarque e um recibo de 1.200 sucres, que eu assinei. Me deu três notas de 100. Caramba, que cara de sorte: uma viagem de graça até o Rio, mais uma graninha para gastar. Desci as escadas me sentindo como se tivesse ganho na loteria.

     Voltei para casa, em Otavalo, de ônibus - me dei ao luxo de regatear um desconto no preço da passagem com o motorista/cobrador/dono do veículo. Cheguei com pacotes de comida e bebida,e fizemos uma festa com o dinheiro da embaixada. Um brinde ao senhor secretário, que embolsou 900 sucres à minha custa!

 



Escrito por clovis heberle às 20h35
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BYE, BYE, REDWOOD

 

     Despedidas eram normais, assim como encontros e reencontros. Todos os dias alguém chegava, partia, voltava. Era a rotina da casa. A despedida de Redwood, no entanto, foi sofrida, longa, e dupla.

     Sem receber dinheiro de casa, as velhas (e únicas) botas se desmanchando, o grandão decidiu estar na hora de reiniciar a sua vida na Califórnia. Comprou a passagem para dali a uma semana, e nos dias que restavam no seu amado Equador passava boa parte do dia parado na frente da janela da sala, os olhos esquadrinhando a paisagem do vale de tantos tons de verde. Falava muito, também. Queria nos convencer a visitá-lo na comunidade onde voltaria a viver, perto de San Francisco. Descrevia a cidade, a geografia da região, as florestas de abetos e pinheiros que cobriam as montanhas até a costa recortada por baías. “Aquilo é lindo demais, vocês têm que conhecer. Pena que fica nos Estados Unidos”.

    Na partida, longos abraços, boas vibrações, o último baseado. A vizinha do andar debaixo e dona da casa trouxe um prato de pipoca. Redwood era um cara legal, sentiríamos a sua falta. No final da tarde, surpresa: lá estava ele, subindo a escada. Aos gritos, justificou: não conseguiu embarcar no avião. Ainda estava incerto entre ficar ou partir.

   Mais alguns dias de crise, horas e horas parado na frente da janela, baforadas e mais baforadas de maconha colombiana e ele finalmente criou forças para uma nova despedida.

   Bye, bye, Redwood.

   Adiós, Maderaroja.




Escrito por clovis heberle às 23h03
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MARCAS DA FOME

  Encontrei um brasileiro numa avenida de Quito. Paulista, mochila surrada por muitas andanças, rosto vincado apesar da pouca idade (não mais de 25 anos), Ricardo sabia tudo de estrada. Já tinha subido até o México, voltado a São Paulo e agora retornava para o norte, sem rumo definido. Viajava sozinho há dois anos, com uma pequena ajuda dos pais quando as coisas ficavam muito difíceis.

    Estávamos na frente de uma banca de frutas e ele pediu, implorou, encheu o saco da vendedora até ganhar uma banana, devorada em segundos. Ricardo dormia ao relento, embaixo de marquises. Pedia dinheiro, pão velho, restos de comida. Catava baganas, se drogava ou bebia quando alguém oferecia qualquer coisa. Adorava esta vida de vagabundo, de cidade em cidade, de país em país. Ao me despedir dei a ele uma carteira de cigarros quase cheia - Full Speed, tabaco negro, o meu predileto. Parado na calçada, acompanhei aquele andar sem pressa até a figura sumir numa esquina, não sem antes me dar um aceno, sorrindo feliz pela “presença” que havia ganho. Cigarros inteiros, dois dias sem precisar juntar baganas.

   Aquela imagem ficou gravada na minha mente. Em casa, ao voltar, me olhei no espelho. Aquele já não era o rosto jovem,  limpo, olhar inocente, do dia em que tirei a foto para o passaporte, há seis meses. O que vi  foi um rosto magro, cansado, já denunciando tantas noites de sono em jejum ("o sono alimenta", dizíamos, como consolo). O rosto de Ricardo, o andarilho paulista.

    Pela primeira vez pensei em voltar.




 

  



Escrito por clovis heberle às 00h57
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JAM SESSIONS

 

Na nossa casa de Otavalo eram comuns as jam sessions. Chegava um com uma gaita de boca, outro com um violão, outro pegava qualquer coisa para batucar o ritmo e estava feito. A Bossa Nova dominava. Americanos e europeus eram fascinados por Tom Jobim, Vinícius, Baden, Bonfá, João Gilberto, os mestres. Assim como nas ruas Roberto Carlos, com Jesus Cristo e até O Calhambeque deliciavam o povão, em casa a mais pedida era Garota de Ipanema. Eu havia até preparado uma versão bilingüe. Cantava metade em português e metade em inglês, na versão autorizada por Tom ("Tall and tanned, young and lovely, the girl from Ipanema goes walking, and when she passes, each one she passes goes uauuuuu...”).

Os gringos não tiravam os olhos dos acordes dedilhados no violão. Da Bossa Nova eu partia para os sambas de Noel, e continuava com Caetano, Gil (“Eu não sou daqui, eu não tenho amor, eu sou da Bahia, de São Salvador/ If you hold a stone, hold it in your head”), e depois Beatles, Bob Dylan, The Mamas and The Papas, James Taylor e Carole King. A estas alturas, todos cantavam, acompanhavam com batidas na mesa, com o que estivesse à mão.

Às vezes alguém queria saber como era candomblé, batuque, umbanda e eu fazia uma demonstração. A lata de lixo virava atabaque ( a minha tumbadora já havia sido vendida, num dos tantos apertos do caminho) e eu cantava o único ponto de umbanda que me lembrava, dos tempos do carioca Régis: “Pai Joaquim, ôô, pai Joaquim, êá, pai Joaquim é rei de Angola, pai Joaquim é de Angolangolá”. Só faltava um californiano ou novaiorquino entrar em transe e incorporar um preto véio. Seria bastante complicado de resolver. Nenhum de nós jamais havia pisado num terreiro...

      O auge da minha "carreira artística" ocorreu quando um empresário equatoriano, dono de uma fábrica de sabão em Quito de passagem pela cidade, me viu cantar no mercado e pediu para ir até nossa casa para ouvir mais. Contou que tinha vários discos de música brasileira, e passou a tarde conosco, fumando, bebendo e curtindo samba e bossa nova. Ao sair, me convidou para gravar um comercial para divulgar a marca do seu sabão nas rádios de todo o país.

     Não dei bola – o cara poderia ter se entusiasmado e, passada a bebedeira, esquecido de tudo. Mas no dia seguinte ele chegou de carro para irmos, conforme o combinado, para a vizinha Ibarra, onde havia alugado o estúdio da rádio local para a gravação.  Música e letra saíram de improviso, com o apoio moral do Pedro e do Dedeco e depois de um, dois, sei lá quantos baseados. O refrão, em ritmo e melodia de bossa nova:

''JABÓN STOP/ LAVA MEJOR SU ROO-PA,

JABON STOP/ LAVA MEJOR SU ROOOO-PA”.

     Não sei se o comercial foi um sucesso nas rádios, mas me senti um pop star ao embolsar a incrível quantia de US$ 300,00. Uma fortuna.





Escrito por clovis heberle às 23h38
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DE CARONA NA HISTÓRIA

Entre os vários tipos de caronas, as melhores – e mais raras – são aquelas em que o motorista é bem educado, culto e comunicativo. Se o carro for confortável, melhor ainda. Foi uma carona dessas que pegamos em Bogotá, na volta para o Equador, com o agrônomo de uma fazenda. No percurso de três horas, tive uma aula sobre a história, a economia e a realidade colombiana.

Com ele e dezenas de outros motoristas aprendi que na raiz das violência e das desigualdades sociais da Colômbia - e, em proporções semelhantes, dos demais países andinos e da Venezuela – está a tremenda concentração do poder econômico e político nas mãos de poucas famílias.  A concentração começou na própria colonização da região pelos espanhóis, no século XVI. Ao contrário do que aconteceu no Brasil, onde os portugueses se estabeleceram na costa e aos poucos foram conquistando o interior com o estabelecimento de fazendas, os espanhóis fundaram suas cidades com método e disciplina, baseados em decretos reais que definiam critérios até para a largura das ruas.

Apoiados por tropas e padres católicos, representantes dos reis de Espanha escolhiam os lugares mais aprazíveis – junto a cursos d'água, em áreas planas e arejadas, de fácil defesa – para fundar as vilas que serviriam de bases para a ocupção. Todas elas começam com a Plaza Mayor, um quadrilátero de onde saem as avenidas principais e as ruas transversais, formando quadras iguais. Na praça, centro de lazer e comemorações públicas, ficam a administração pública e a igreja. Em todos os territórios, seja das Américas ou das Filipinas, o procedimento era sempre o mesmo.

Aqueles espanhóis que tinham coragem de abandonar seu país para enfrentar os perigos de uma América povoada por tribos indígenas geralmente hostis ganhavam as melhores terras para produzir, com a proteção do império. Os privilégios concedidos a estes primeiros desbravadores foram transmitidos para as gerações seguintes. Os índios foram empurrados para as montanhas ou para a selva, e tiveram que se conformar com as atividades agrícolas e artesanais. Na Bolívia foram escravizados e morreram aos milhões nas minas de ouro, prata, cobre e estanho. Comércio, indústria, instituições financeiras, agricultura mecanizada e pecuária extensiva ficaram com as famílias dos colonizadores.

Todas as tentativas de mudança desta estrutura foram reprimidas com violência. Violentas também têm sido as lutas pelo poder político entre grupos rivais ao longo do século 20, numa sucessão de golpes e contragolpes mais ou menos sangrentos que só amainou na década de 1960. Enquanto isso, os remanescentes dos incas e demais tribos – mais de 70 por cento da população na Bolívia, no Peru e no Equador - conseguiram manter incólumes a sua língua, os costumes e as tradições. A consolidação da democracia tem permitido aos índios aumentar a participação na política e na economia de seus países. As mudanças no território onde o império inca foi conquistado a ferro e fogo pelos espanhóis passam pela retomada do poder pelos descendentes de Atahualpa, o último imperador.





Escrito por clovis heberle às 22h50
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