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Blog de clovis.heberle
 


Uma viagem no Titicaca

      O ônibus parecia flutuar, a 80 quilômetros por hora, sobre a estrada de cascalho que liga La Paz à fronteira com o Peru. Todos estávamos viajando de ácido (inclusive o motorista), e apreciávamos silenciosos a paisagem de encostas cultivadas das montanhas de um lado e as margens do Lago Titicaca do outro, quando solavancos e um forte cheiro de borracha queimada nos trouxeram de volta à realidade. Dois pneus traseiros haviam estourado e estavam destruídos(o motorista deveria ter parado logo que o primeiro estourou, mas estava, digamos, distraído, e só se deu conta que havia algo errado quando não conseguiu mais controlar o veículo.

      Ninguém estava com disposição para trocar os pneus, nem havia socorro ali, no meio do campo. Saímos caminhando pela beira do lago até encontrarmos um índio Uro com sua canoa de totora (o junco que cresce nas margens). Os Uros aproveitam tudo da totora: os talos tenros são dados para os animais, e o resto da planta, depois de amassado e desidratado, é transformado em canoas, casas e até ilhas artificiais, onde boa parte da tribo vive. Há nove delas flutuando no lago. No rio Guaíba e na Lagoa dos Patos existem juncos semelhantes.

    Nossa caixa estava baixa: apenas 25 pesos bolivianos (o equivalente a cinco dólares), mas este era exatamente o preço que o índio cobrava para um passeio no seu barco. Foi um belo passeio pelas águas escuras e calmas do Titicaca, num dia ensolarado e sem vento. Quando voltamos para a margem, o efeito do ácido havia passado, e trocamos os pneus para seguir viagem.

     Daí para a frente, as coisas ficaram mais difíceis. Estávamos sem dinheiro e sem a banda para ganhar algum, e o ônibus, maltratado em milhares de quilômetros de estradas precárias, subindo e descendo montanhas, mandava sinais de que não resistiria muito mais. Rodávamos com apenas quatro rodas (o rodado traseiro de um caminhão é de duas rodas de cada lado) e a cada poucos quilômetros tínhamos que parar para consertar algo. Outra dificuldade era a falta de colaboração dos moradores daquela região, acostumados a explorar os gringos. Nosso papo de "estudiantes brasileños sin plata" não pegava naquela região de turismo. Sermos tirados de um atoleiro por um trator nos custou uma bicicleta. Uma velha gritava que queria 50 pesos por ter nos emprestado um pedaço de madeira usada como alavanca. Mandamos ela à merda e dissemos em coro alguns palavrões em português. Fomos em frente sem pagar, ouvindo suas maldições.

 



Escrito por clovis heberle às 16h33
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HORA DE PARTIR

 

A convivência de onze jovens no espaço exíguo de um pequeno ônibus, semana após semana, é normalmente complicada. Some-se aos problemas naturais o consumo de drogas, a nossa inexperiência em vida comunitária e o fato de parte do grupo – os cariocas – serem praticamente desconhecidos para nós, os gaúchos, e o resultado foi o previsto: um racha.

Já em Oruro, passada a fase do deslumbramento com os novos companheiros, ficara clara a divisão entre os três cariocas (havia disputas também entre eles) e nós, que saíramos de Porto Alegre com um projeto comum e tínhamos relações de amizade. Régis, incontrolável, tomara sete ácidos de uma vez, sumira por dias, torrara o dinheiro que era de todos. Depois de uma violenta discussão entre ele e Serginho, que acabou envolvendo a todos, arrumamos as nossas mochilas para abandonar o ônibus e continuar de carona. Além das baixarias aprontadas pelos cariocas, havia também uma divergência de timing: parte de nós queria seguir mais rápido, e a outra preferia ficar mais tempo em cada cidade, para curtí-la melhor.

Acabei ficando no ônibus, junto com o Dodo e a Nara (que ainda namorava o carioca Gastão). Estava ansioso para chegar logo ao Peru – e também cedi ao comodismo de viajar com um teto e uma cama. A despedida foi muito triste, especialmente para mim, que deixava os meus amigos e colegas de faculdade. Decidimos partir ainda naquela noite – estávamos sendo vigiados pela polícia, e tínhamos medo de sermos presos a qualquer momento. O entra-e-sai de traficantes e outros marginais era visível demais. Para dar um exemplo do nível dos nossos visitantes, vejam o que escrevi no meu diário da época: " Pegaram carona conosco nossos amigos Joe Camera Lenta, vapor de coca e ladrão (uma noite apareceu com um gravador enorme, roubado) e Chocho, famoso transador de tudo. Camera Lenta se mandou na saída da cidade. Chocho continuou até a fronteira com o Peru. Agora está em cana."

Subimos a tortuosa e íngreme estrada que liga o centro de La Paz ao bairro-cidade de El Alto (se tornou conhecida nos últimos anos pelas barricadas com que foi bloqueada pelos indígenas liderados pelo atual presidente Evo Morales). Lá, perto do aeroporto, o motor se entregou e tivemos que parar para dormir. De manhã, caminhei até a borda da encosta de onde se vê a cidade. A névoa dava ao cenário um clima surreal – parecia que eu era personagem de um filme. Olhei para os lados, e vi que vários hermanos haviam tido a mesma idéia que eu: dar uma cagada olhando a paisagem...



Escrito por clovis heberle às 08h15
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LOS LATINOS...

DEPOIS DA SEGUNDA CERVEJA

Na Argentina: "nosotros los Argentinos somos muy sentimentales

Na Bolívia: "nosotros los bolivianos somos muy sentimentales"

No Peru: "nosotros los peruanos somos muy sentimentales

    Do Uruguai até o México, é sempre igual. Nosotros, los latinos, somos muuuuuuy sentimentales... 

 

 



Escrito por clovis heberle às 22h07
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A neve do Chacaltaia



Escrito por clovis heberle às 23h24
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NEVE! NEVE!

Subir até o topo do Chacaltaia, a 5.300 metros de altitude, para conhecer a mais alta pista de esqui do mundo, foi idéia do Serginho. Irriquieto, simpático e envolvente, foi o Serginho, numa das memoráveis festas que promovia no casarão da sua família em Petrópolis, que nos convenceu a desbravar a desconhecida América Latina em vez de, como os outros, partir para a Europa.

A pista de esqui estava fechada desde o golpe militar, mas fomos informados que a estrada dava passagem, até para o ônibus. E, afinal, a recompensa seria o nosso primeiro contato com a neve. Resolvemos correr o risco. Foram cerca de 2.300 metros de subida por uma estrada de chão estreita, sem movimento, perigosíssima, cheia de curvas fechadas. Virar à direita não tinha problema, mas quando elas eram para a esquerda tínhamos que dar marcha-a- ré para vencê-las, pois uma pedra na estrada entre Oruro e La Paz havia danificado a suspensão do Grilo. A operação era dificultada porque o freio só brecava o pesado veículo depois de quatro ou cinco "bombeadas" no pedal. Enquanto um dirigia, outro – quase sempre eu – ficava na porta, com um calço, para saltar e colocar embaixo da roda dianteira, por garantia, caso o freio não funcionasse a tempo. Os outros ficavam apreciando a beleza do panorama ... e rezando para não despencar no precípio.  

Nossos anjos da guarda estavam atentos naquela manhã de sol, e conseguimos chegar até o portão da estação de esqui abandonada. Estávamos no meio da neve, neve de verdade, farta, que cobria todo o topo da montanha. Saltamos do ônibus e, embriagados de felicidade, começamos a brincar, fazer bolas para jogar uns nos outros, rolar na superfície branca e fofa. Os teleféricos desativados não me impediram de sentir a sensação de esquiar, deslizando alguns metros montanha abaixo de pé mesmo, sobre a sola das botas.

Fazia muito frio, nossas mãos estavam congelando, mas ninguém ligava. No fim da tarde nos recolhemos para passar uma longa noite em que a temperatura certamente chegou abaixo de zero. Meu saco de dormir não aquecia o suficiente para pegar no sono, mesmo mantendo as roupas e o casaco. A maior vítima do frio foi um de nós - não me lembro quem, e se lembrasse não revelaria - que estava com diarréia e, volta e meia, tinha que sair e expor o traseiro ao vento gélido. Os gritos dele varavam a noite.

A descida, na manhã seguinte, foi tranqüila. O motor resistiu – havíamos retirado a água do radiador para que, ao congelar, ela não estourasse a tubulação - e na descida era bem mais fácil vencer as curvas da estrada. O Chacaltaia voltara a ser uma apenas mais uma montanha na linha do horizonte de  La Paz.



Escrito por clovis heberle às 17h29
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Um país traumatizado

 
    La Paz foi um choque de realidade boliviana. Em fevereiro de 1972 a capital ainda estava traumatizada pelo golpe militar ocorrido seis meses antes. Liderado pelo general ultra-direitista Hugo Banzer, com o apoio dos regimes militares militares brasileiro e argentino (o Chile ainda era presidido por Salvador Allende, deposto um ano e meio depois), o novo governo acabou com a atividade política e sindical do país, prendeu e matou quem ousou se opor a ele.
    O imponente edifício da Universidade de La Paz, localizado numa avenida central da cidade, ainda tinha as marcas dos ataques do exército e de aviões da Força Aérea. Reduto de resistência de estudantes e mineiros, suas paredes estavam perfuradas pelas balas das metralhadoras, com quase todos os vidros da fachada quebrados.
    Líderes estudantis nos visitavam para contar histórias de violência, de heroísmo, de desilusão, de impotência diante do obscurantismo. A descrença no futuro do país era tanta que até a sua dissolução e divisão entre o Chile, o Brasil, a Argentina e o Peru era defendida por boa parte deles. 
    Também vieram ao ônibus falar conosco alguns rapazes bem vestidos, cabelos curtos e barba feita que se diziam paramilitares a serviço do novo regime. Nos levaram de carro para visitar a sede de seu grupo, denominado Os Falcões, num edifício moderno de um bairro de classe alta. Eles contaram que haviam sido treinados e armados por militares para darem apoio ao golpe, e se vangloriavam de terem tido uma participação importante na invasão da universidade. Mostrando revólveres, disseram que garantiriam a nossa segurança. Foi uma das poucas vezes em que sentimos medo. Felizmente eles não vieram mais ao ônibus.
      Em compensação, a cada dia apareciam mais e mais malucos, curiosos, traficantes, pessoas interessadas em vender ou trocar alguma coisa. Começamos a perder o controle da situação. Numa manhã, parte do grupo havia sumido com metade dos instrumentos musicais e todo dinheiro da caixinha. Na volta, no dia seguinte, os fujões contaram que tinham tomado um ácido e ido até Oruro com alguns bolivianos para um encontro de jovens. Voltaram sem os instrumentos - e sem dinheiro, claro.


Escrito por clovis heberle às 23h56
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Califórnia Sunshine


 

     Acordei ao amanhecer, com um ruído que vinha da rua. Parecia que estavam raspando o chão. Abri a janela do nosso ônibus-casa, estacionado na praça do Montículo, uma colina de La Paz, e vi um grupo de índias varrendo vigorosamente as calçadas e o meio-fio  com enormes vassouras feitas com arbustos.  Eu dormia dentro do meu saco de dormir, na parte de trás do ônibus, em cima de um balcão usado como depósito de materiais. Na parte da frente havia dois conjuntos de beliches. Numa das camas de cima, o Dodo também se acordava. Estávamos sós. Ele olhou para mim e começou a mover as pernas para descer. Comecei a rir: as pernas dele pareciam flexíveis, como a do Máskara. Esticaram até o chão, enquanto a cabeça e o resto do corpo se mantinham sobre a cama. 
 Ele olhou para mim e também começou a rir  - também devia estar me achando diferente. Começamos a conversar e  nos lembramos que ainda estava escuro quando o Régis nos acordou, disse para abrirmos a boca e colocou dentro um comprimido avisando que era ácido - um Califórnia Sunshine. Vestimos roupas confortáveis e saímos.
  A primeira mudança que senti foi no olfato. Ainda na praça, cercada de eucaliptos, parei para respirar fundo e sentir o perfume das árvores. Engraçado, estávamos alí há mais de uma semana e eu nunca havia reparado que elas exalavam um perfume tão delicioso. Ficamos ali, mudos, olhando a paisagem. Os diferentes  tons de verde das montanhas que cercam a cidade se tornaram mais vivos, contrastando com a cor de barro das casas.
Saímos a caminhar, e já no subúrbio entramos num boteco escuro e pedimos picolés. Eram daqueles de groselha, feitos em casa, e quando coloquei na boca, senti o líquido gelado de sabor metálico molhar a língua e descer pela garganta. Enquanto analisava o que estava acontecendo, senti os olhares de alguns índios cravados em nós.  Estavam sentados em mesas no fundo do bar bebendo cerveja, e devem ter nos achado seres de outro mundo. Começaram a rir, começamos a rir com eles, e o riso se tornou incontrolável para todos. Pagamos os picolés e saímos, dando gargalhadas e ouvindo as gargalhadas deles.
   Eu imagino La Paz como uma imensa metade de uma casca de ovo cortada longitudinalmente. A cidade foi edificada na sua parte mais baixa, e é cercada de paredões que sobem até o altiplano, a quatro mil metros de altura. Subimos pelas ruelas de um bairro miserável de  pequenas casas de barro encravadas na montanha até chegar à parte mais alta, desabitada, onde a chuva e o vento esculpiram o que me pareceram bustos humanos na terra vermelha. Ficamos junto a eles, olhando a cidade lá de cima. Para nós, aquelas figuras eram velhos caciques, observando, século após século, a decadência de seu povo, submetido primeiro aos conquistadores espanhóis e depois às grandes companhias mineradoras que reduziram quase toda a população indígena à miséria. Antes de começarmos a descida me despedi deles desejando, emocionado, que um dia a Bolívia superasse a submissão aos exploradores estrangeiros e recuperasse o seu orgulho e o direito a usufruir de suas riquezas.

 



Escrito por clovis heberle às 01h06
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La Paz vista de El Alto

 Centro de La Paz visto de El Alto, um bairro-cidade (que em 1972 era apenas um bairro)  no altiplano, a 4 mil metros de altitude, onde fica o aeroporto. A paisagem, com as montanhas ao fundo, é de perder o fôlego, especialmente se o viajante não está acostumado com o oxigênio rarefeito... 

Escrito por clovis heberle às 00h25
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ESTELIONATO MUSICAL

Contribuição do Dodo, parceiro musical daquela viagem e grande amigo até hoje:

"Duas músicas me evocam a passagem por Oruro. Uma delas é um tipo de hino da cidade, e a parte que me lembro era assim: "Cuando yo me vaya lejos de Oruro, cuando yo me vaya lejos de Oruro, morenada cantaré, morenada ai si, morenada bailaré, con todito corazón...". A outra tem uma pequena e saborosa história. Quando nos despedíamos do local, estacionamento, onde estivéramos por vários dias para conserto do ônibus, uma jovem de 15 anos, filha do dono e que se tornara uma espécie de fã daquele grupo de viajantes músicos, pediu a cada um que deixássemos gravada uma música no seu gravador Philips, ( uma caixinha preta muito conhecida na época). Quando chegou a minha vez eu convidei o Alemão Clóvis para tocarmos Greenleaves to a ground, uma canção renascentista muito em voga nos anos 60 e 70. Eu na flauta doce e o Clóvis no violão, já estávamos bem afiados de tanto tocá-la. Assim, eu disse: " Clóvis , vamos tocar a "nossa" música."

Em La Paz nos dividiríamos, e nos encontramos em Lima, Peru, uns dois meses depois. O Paulinho me diz:

 - Dodo, sabe que em Macchu Picchu havia um cara, um francês tocando aquela sua música? (e cantarolou o Greenleaves ) e continuou:

- Aí eu disse que aquela música era de um amigo .

Eu, claro, tive que perguntar "E o que o sujeito disse?"

-Nada, só ficou me olhando acho que não acreditou .

    O Paulinho me colocou simplesmente como parceiro do rei Henrique Oitavo, o autor dos lyrics. "

 

   Nota do Clóvis: assim como as diabladas, as morenadas eram músicas típicas de Oruro, cantadas e dançadas no carnaval e também durante o resto do ano.

 



Escrito por clovis heberle às 22h09
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Touro Sentado

"Eu sou um filho da puta", exclamou Régis, num daqueles repés de cocaína em que só outra dose nos tira do desânimo profundo, daquele estado incômodo de não ter energia para nada, o corpo exaurido pelo estímulo da droga que durante muitas horas o dispensou de alimento e de sono..

Nós o cercamos para ouvir o seu desabafo e consolá-lo. Afinal, aquele carioca da gema de quase dois metros de altura, corpulento, moreno de olhos verdes, era gente fina. Foi ele que comprou o ônibus já desativado do transporte coletivo, reformou-o e o adaptou para servir de casa. Foi dele a idéia de atravessar os três continentes, junto com dois amigos e vizinhos de Copacabana. Só a saudade da praia e eventuais bodes por excesso de álcool ou drogas tiravam o seu bom humor. Era um líder nato, para o bem ou para o mal.

Mais calmo, Régis explicou que era mesmo um filho da puta. A mãe dele "se virava" em Copacabana, e, anos depois, quando ele já era adolescente, ela passou a ganhar a vida vendo cartas, fazendo "trabalhos" para abrir os caminhos da vida e do amor e, às vezes, apelando para transes em que os santos baixavam nela para apontar respostas para as aflições das clientes. Desde então, o filho apoiava a mãe na farsa, e às vezes cantava pontos de macumba, como este: "Pai Joaquim, êê, pai Joaquim êá, pai Joaquim é rei de Angola, pai Joaquim é de Angolangolá" .

Alguns dias depois, Régis declarou que havia incorporado nele o espírito do cacique Touro Sentado. Foi a um barbeiro e pediu para cortar todo o cabelo dos dois lados da cabeça, deixando só uma franja, de alto a baixo. Nas semanas seguintes, por várias vezes, eu "pelei" a cabeça dele, com uma navalha, depois de passar creme de barbear, claro. A nova personalidade de Régis foi rapidamente aceita pelo nosso grupo e pelos moradores dos lugares onde passávamos (para eles, era o Toro Sentao...). Ele voltou ao Brasil de Lima, ainda como Touro Sentado. 



Escrito por clovis heberle às 11h50
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Diablada de Oruro



Escrito por clovis heberle às 16h17
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Diabladas: 10 dias de homenagens ao diabo

É carnaval em Oruro. Mas um carnaval diferente. Em vez de samba e mulheres desnudas, o que se vê pelas ruas são desfiles de pessoas com máscaras representando o que os padres espanhóis descreviam como o diabo, na época em que o império Inca foi convertido, a ferro e fogo, ao catolicismo. Apesar das danças, chamadas "diabladas", terem sido proibidas pelos colonizadores no século XVII, acabaram revivendo, e desde a década de 40, no mês de fevereiro, os índios fazem máscaras de gesso pintadas de cores fortes, de feições horrendas, com chifres retorcidos. Há pelo menos 20 grupos organizados na cidade. As mulheres desfilam com suas roupas coloridas. Muitas exibem colares, anéis e brincos de ouro e prata.

A diablada não existia antes dos espanhóis chegarem. Ao aprenderem com os padres que o diabo habitava as profundezas da terra e Deus o céu, os índios, pressionados a acharem veios de ouro e prata, e depois a trabalharem nas minas em condições precaríssimas, acharam natural manter relações pelo menos cordiais com quem, desde a criação do mundo, já morava lá. Nas últimas décadas esta crença virou folclore e motivação para uma festa alegre e colorida, que mobiliza cerca de 10 mil foliões e atrai turistas de todo país. Mesmo assim, encerradas as diabladas, todos correm à catedral dedicada à Virgem da Candelária, sucessora da Pachamama das suas tradições ancestrais, para pedirem perdão.

Peças teatrais em que Deus acaba vencendo o demônio ou o Arcanjo Miguel derrota Lúcifer, que também servem para aliviar a consciência culpada dos foliões, completam os 10 dias e 10 noites de festas ininterruptas, embaladas pela excelente cerveja Paceña.

 

 



Escrito por clovis heberle às 15h34
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O APOGEU E O FIM DE LOS MACUNAÍMA

 

Oruro não teve o esplendor da vizinha Potosi, mas também não entrou em decadência quando os veios de prata se exauriram, pois na região havia muito estanho e outros minerais para manter a sua atividade econômica. Até até hoje é um importante pólo industrial e de mineração.

Os orurenhos são descendentes dos orurus, índios conhecidos já no século 16 pelo seu talento para a cerâmica. Nas últimas décadas, Oruro se tornou conhecida como a capital boliviana da música e a dança. As Peñas Folclóricas, restaurantes com palcos para apresentações de grupos musicais, são a maior atração da cidade, e o carnaval atrai visitantes de todo o país e cada vez mais estrangeiros.

Nós chegamos poucos dias antes do carnaval, e o Grilo logo se tornou atração na cidade. O dono de um posto de gasolina e oficina mecânica nos cedeu lugar para estacionar o ônibus, com direito a banheiro, água e uma sala onde montamos o laboratório fotográfico. Uma banda de música brasileira era tudo o que os donos das Peñas queriam para dar um toque especial às noitadas animadas por quenas, charangos e bumbos, e fechamos contratos para nos apresentar em troca de refeições e uma pequena quantia em dinheiro (no primeiro dia, ao verem aquele bando de onze famintos comendo por 22, eles se arrependiam, mas aí já era tarde...).

Produzimos fotos promocionais em que o cenário era a rampa da própria oficina (coloquei no blog as únicas que trouxe comigo). Colávamos as fotos nas vitrines das lojas, e fazíamos propaganda dos shows rodando pela cidade, três ou quatro cantando e batucando na capota. À noite éramos a atração principal, anunciados como "Los Macunaíma, directamente de Brasil". O reforço dos cariocas Gastão no violão e Paulinho e Régis na percussão deu mais solidez e ritmo à banda, e os sambas e músicas de carnaval eram especialmente aplaudidos. Maria Orminda, uma cearense de corpo fornido, parecido com os das índias quechuas, não cantava nem tocava instrumento algum, mas tinha um papel fundamental, especialmente quando o nosso desempenho não estava bom. Ela não se fazia de rogada quando eu pedia "rebola, Minda, rebola". Ninguém mais prestava atenção na música. Era um delírio.

Durante o dia, além de promover nossos shows, percorríamos as casas comerciais com um livro de ouro para pedir ajuda financeira. Nos apresentávamos como estudantes brasileiros em viagem de estudos que precisavam de apoio para conhecerem o país. Foi uma excelente idéia da Liana, que havia se tornado uma espécie de gerente da casa. Outra, também dela: visitávamos fábricas de alimentos e pedíamos doações. Conseguimos um bom estoque de leite (em pó, condensado), macarrão e outros produtos. Duraram semanas, e acabaram nos causando incômodas prisões de ventre.

Nossa temporada era um sucesso, tínhamos dinheiro e alimentação garantidos. Sem problemas, digamos, logísticos, poderíamos continuar viajando o tempo e para onde quiséssemos. Sempre haveria palcos, praças e pessoas dispostas a ajudar estes jovens estudantes, simpáticos e talentosos, numa fascinante viagem de estudos. Mas aí começaram nossos problemas com as drogas. Em vez de bicarbonato, provamos a puríssima cocaína boliviana. Depois o LSD, trazido por norteamericanos e europeus.

Era cada vez mais difícil reunir a turma para ensaiar e até mesmo para almoçar no horário marcado pelos donos dos restaurantes. Uns ou outros passavam a noite em claro, depois de cheirar algumas carreiras, e passavam a maior parte do dia dormindo. Quando acordavam, só pensavam em sair para " batalhar um pozinho". Começaram as brigas entre nós e entre os casais que havia se formado no grupo. O dinheiro, guardado em caixa único, sumia, sem que ninguém soubesse quem pegou e para que.

O carnaval havia passado, não tínhamos shows para fazer, a cidade já não oferecia novos atrativos. Era hora de partir.

 



Escrito por clovis heberle às 15h54
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ENTREI NUMA FRIIIIAAAAAA (parte 1)

     Os cariocas trouxeram muita maconha, da boa, ao deixarem o Posto Seis com destino ao Canadá. Era para durar até a Colômbia, mas a carne é fraca. Em Salta, na Argentina, o estoque  já estava na última trouxinha. Mas eles não estavam chateados com isso. Ouviram falar que alí havia cocaína da boa. Afinal, a Bolívia ficava logo ali. Ninguém de nós havia provado ainda o pozinho branco, raríssimo e caro no Brasil naquela época.

   Foram atrás e voltaram faceiros da vida, com um hermano que propôs uma troca vantajosa para os dois lados: maconha brasileira por coca boliviana, da melhor. Eram vários papelotes, daria para todos. O cara se mandou e nós pedimos os espelhos das gurias para cheirar as carreirinhas. Depois das primeiras cheiradas, foi aquela gritaria. Puta que o pariu! O calhorda nos deu bicarbonato de sódio.  



Escrito por clovis heberle às 00h22
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Cerro Rico



Escrito por clovis heberle às 22h23
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Lágrimas de prata

"En Potosi solo tenemos dos estaciones: el invierno y la estación del tren..."

É com esta frase, seguida de uma gargalhada, que os moradores da cidade costumam descrever o seu clima. Apesar de estar situada na mesma latitude de Belo Horizonte, em Potosi os termômetros raramente marcam mais de 20 graus, mesmo no auge do verão, por ser uma das mais altas cidades do mundo – fica 4 mil metros acima do nível do mar.

Ao chegar lá, eu já havia me acostumado com o ar rarefeito do altiplano. Meu choque foi outro: ver de perto um dos mais emblemáticos exemplos da rapina de um país cujas riquezas foram saqueadas enquanto quase toda a população, de absoluta maioria indígena, permaneceu, século após século, na extrema pobreza.

Fomos contratados para nos apresentar durante as tardes, nos intervalos entre uma e outra sessão do cinema local. O dono do cinema nos cedeu um quarto  ao lado da sala de projeção para dormirmos. Enquanto os filmes rodavam, aproveitávamos para conhecer a cidade que, entre os séculos 16 e 18, sustentou o império colonial espanhol e a renascença européia. Calcula-se que, apenas do Cerro Rico, morro que se sobressai na paisagem da cidade, foram retiradas 56.000  toneladas de  prata, suficientes para ligar Potosi a Madri. As mineradoras continuaram em atividade até 1985,quando as minas, exauridas, foram praticamente abandonadas, deixando a maioria dos seus 120 mil habitantes da cidade sem trabalho.

A primeira impressão que se tem do Cerro Rico é de um imenso queijo cheio de buracos, de cor avermelhada, pois nada cresce nas encostas.  Visitar suas minas é um passeio obrigatório. Ver o que restou das minas, e o contraste entre o quanto foi retirado e a miséria do entorno, dá vontade de chorar - lágrimas de prata.

    Apesar de seu aspecto desolador, o cerro ainda provoca cobiça: com as modernas técnicas de mineração, é economicamente viável extrair a prata remanescente nas suas rochas, moídas por máquinas de grande capacidade de produção. Ao fim do trabalho, nada mais restaria desse monumento  ao colonialismo selvagem.   Numa recente pesquisa de opinião promovida pelo governo sobre esta possibilidade, a população manifestou uma opinião unânime: prefere deixar o cerro como está, pois nada teria a ganhar com a sua exploração.

   O centro histórico também tem corrido riscos. Seus  prédios coloniais, quase todos em mau estado, ainda dão uma boa idéia do antigo esplendor do período colonial , quando era uma das cidades mais importantes e populosas do mundo. Considerada patrimônio histórico mundial pela Unesco,  Potosi tem resistido às tentativas de governos e grupos econômicos interessados em demolir a área urbana para explorar o seu sub-solo, onde ainda há minerais valiosos.

Um dos poucos prédios preservados do Centro Histórico, o museu onde funcionava a Casa da Moeda, é outro símbolo do barbarismo espanhol. Era ali que a prata das minas era transformada em lingotes e moedas para abastecerem o império. Os indígenas eram usados como tração animal para movimentar as máquinas. Empurravam alavancas andando em círculos, como os bois nas antigas moendas. Quando desfaleciam, eram retirados e substituídos.  Sulcos circulares nas pedras onde pisavam ficaram como marcas de tantos anos de trabalho. Nas minas, as jornadas se estendiam do amanhecer até a noite. Sem ver a luz do sol, mal alimentados e respirando ar rarefeito e contaminado, morriam em poucos meses. Em 1638, o frei Antonio de la Calancha escreveu que cada moeda de um peso custava a vida de 10 índios.

    Nas ruas de Potosi, conversando com os descendentes destes quíchuas, concluí que a vida deles não melhorou muito de lá para cá. Mascam folhas de coca o dia todo para "quitar el hambre", bebem álcool puro para aliviar o frio depois  deixá-lo  queimar um pouco baixar o teor alcoólico  e vagam pelas montanhas, sós ou em grupos, em busca de algumas gramas de prata que tenham escapado de cinco séculos de pilhagem.   

 

 



Escrito por clovis heberle às 15h41
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Long and winding road



Escrito por clovis heberle às 16h06
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