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Blog de clovis.heberle
 


A cidade dos reis espanhóis

Lima foi fundada por Francisco Pizarro, o verdugo do império inca, em 1535, depois da conquista de Cuzco. Ganhou o nome de Cidade dos Reis, mas acabou adotando o nome derivado do quíchua Rimac, o rio que desagua na cidade . Hoje, com quase 8 milhões de habitantes, mantém seu antigo charme do período colonial, mas tem graves problemas d e abastecimento de água, saneamento e transportes, devido à migração em massa das populações indígenas do interior. Na foto, a catedral, situada no centro da cidade.



Escrito por clovis heberle às 12h12
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ELA SE CHAMAVA VENUS

 

       Amanhecia quando chegamos a Lima. Estacionamos na frente de uma lancheria no sofisticado bairro de Miraflores e cochilamos até que abrisse, às sete horas. O cheirinho de café, do pão recém torrado, o barulho do liquidificador nos trouxeram de volta à civilização. Foi o primeiro café da manhã “ocidental” desde a saída do Brasil: torradas de presunto e queijo, ovo frito, suco de laranja, café com leite.

      Bastaram alguns dias na capital peruana para voltarmos a atrair a atenção dos malucos e dos curiosos de sempre. A década de 1970 recém começara, e as ondas do flower power, do amor livre e da contracultura, das drogas leves e pesadas chegavam com força a um Peru que respirava liberdade e tolerância no governo do general de centro-esquerda Juan Velasco Alvarado. Os acordes de Jimmy Hendrix, Janis Joplin, Joe Cooker e principalmente de Santana no Festival de Woodstock ainda ressoavam nos ouvidos dos jovens peruanos.  A imprensa, censurada como nunca no Brasil, discutia livremente temas tabus como a coletivização das terras, as reformas sociais e a estatização das empresas petrolíferas estrangeiras, em andamento no país. O jornal mais combativo, o Extra, havia sido expropriado e passara para o controle dos jornalistas.

      A loucura recomeçara, depois de algumas semanas de calmaria. Os cariocas que haviam subido a Cusco e Macchu Picchu voltaram, e Dodo nos reencontrou. O clima, porém, era  de fim de festa, pois Régis, o dono do ônibus, cansado de tantos problemas, pirado de tanta droga, havia desistido de seguir adiante. Já não era mais o orgulhoso Touro Sentado, com seus cabelos cortados à moicano,  mas apenas o jovem carioca ansioso em voltar para casa, no posto Seis de Copacabana. O sonho de levar o velho Chevrolet até Detroit para trocá-lo na GM por um motor-home zero quilômetro e seguir Canadá afora para depois retornar ao Brasil tinha se perdido nas quebradas dos Andes.

    Tentamos vendê-lo, mas havia entraves burocráticos insuperáveis. Pensamos até em incendiá-lo, depois, claro, de chamar a imprensa. Enquanto o assunto não se resolvia, e o dinheiro das passagens de volta deles não chegava (eu nem pensava em voltar), passávamos os dias passeando pela cidade, comendo cebiche (peixe cru, curtido no limão) em barracas de praia. Quando não havia dinheiro para comer numa chifa (os onipresentes restaurantes chineses ) matávamos a fome nos  baratíssimos "comedores populares" (onde perdi um dente mordendo uma pedra misturada ao arroz). Provávamos todas as  drogas que os novos amigos, na maioria moradores do bairro de alta classe média, ofereciam aos "hippies" brasileiros.

     Num dia desses apareceu Venus. Bonita, alegre, sensual, pele cor de mel, trajada com vestidos indianos, era a versão peruana de Mariska Veres, a vocalista germano-hungara da banda holandesa Shocking Blue. O nome ela tirara de uma música que na época estourava nas paradas de sucesso da Europa, dos Estados Unidos e da América Latina, cujo refrão dizia “I'm your Venus, I' your fire, your desire”. Ela logo nos conquistou. Chegava a qualquer hora do dia ou da noite, sempre trazendo alguma coisa – bebida, comida, fumo e tiradas bem-humoradas. Vi com ela o filme Zabriskie Point, de Antonioni, num cinema alternativo, mas estávamos muito doidos, viajando de ácido, para prestar atenção ao enredo. Eu não sabia mais se o que passava na tela era real ou alucinação (tive que ver o filme de novo quando voltei ao Brasil). Na saída do cinema, no elevador lotado, nos olhamos e ela exclamou, deslumbrada com o filme  e o ácido: "carajo!" Para logo corrigir, baixinho, diante dos olhares espantados dos cinéfilos, que também saíam do cinema: cara de ajo... E saímos do prédio dando gargalhadas.

       And Venus was her (nick) name... 

 

    

Venus   
   
     A goddess on a mountain top
        burning like a silver flame,
        Summit of beauty and love,
  
     and Venus was her name.
  
     She's got it,     yeah baby, she's got it.
  
     I'm your Venus, I'm your fire at your desire.

        Her weapon's are her crystal eyes
    making every man mad.
    Black as the dark night she was,
    got what no one else had.
  
She's got it, yeah baby, she's got it.
    I'm your Venus, I'm your fire at your desire.
    Well, I'm your Venus, I'm your fire at your desire.
      
  

   



Escrito por clovis heberle às 21h51
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As Linhas de Nazca

As linhas de Nazca foram feitas entre 200 a.C. e 600 d.C. ao longo de rios que desciam dos Andes. O deserto estende-se por mais de 1.400 milhas ao longo do Oceano Pacifico. A área de Nazca onde se encontram os desenhos tem 15 milhas de largura e corre ao longo de 37 milhas paralela aos Andes e ao mar. As pedras vermelho escuras e o solo foram limpas, expondo o subsolo mais claro, criando as "linhas". 



Escrito por clovis heberle às 23h05
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No calor do deserto

 

       A costa peruana é desértica. Entre o mar e a cordilheira dos Andes só existe vegetação – e vida humana - nas margens dos poucos rios que descem das montanhas. São oásis onde floresceram algumas importantes civilizações pré-incaicas, entre as quais a Nazca, 450 quilômetros ao sul de Lima, conhecida pelos desenhos gigantescos traçados no solo, visíveis apenas do alto. Como na época em que foram traçadas não havia aviões nem satélites, até agora não surgiu uma explicação racional que explique o mistério.

      O alemão Erich Von Däniken foi o maior responsável pela fama das chamadas Linhas de Nazca ao lançar, em 1968, o livro Eram os Deuses Astronautas. Para ele – e vários outros estudiosos – a costa peruana teria sido habitada por seres extra-terrestres, que ali tinham um aeroporto. A “pista de pouso” ainda está lá, assim como figuras humanas e de animais.

    Na viagem de 700 quilômetros até Lima tivemos que passar alguns dias em Nazca, mas não nos ocorreu visitar o “aeroporto”. Estávamos preocupados demais em consertar o motor do ônibus e chegar o mais rápido possível à capital peruana. Os problemas mecânicos começaram já no primeiro dia. O bloco do motor não resistiu ao calor do deserto e rachou. Fiquei dois dias sozinho na estrada, esperando pela volta do Régis e do Pedro, que foram a Arequipa para vender uma máquina fotográfica e um rádio portátil para pagar o conserto. O Dodo, preocupado com o reinício das aulas na faculdade de Medicina, em Porto Alegre, havia pegado a primeira carona que apareceu rumo ao norte.

    Decidimos viajar apenas à noite, quando a temperatura baixa, e descansar de dia. Éramos apenas três para nos revezar ao volante - já não havia mais disputa pela direção, como antes -, e pela primeira vez dirigi um veículo daquele tamanho, e num estado tão precário. A rodovia Pan-Americana, que corre paralelamente à costa, era, então, apenas uma estreita faixa de asfalto, sem sinalização. Em alguns trechos as dunas de areia avançavam sobre a pista. Os faróis fracos e desregulados e o cansaço eram dois inimigos perigosos naquelas madrugadas, e várias vezes achei que não conseguiria evitar uma colisão com os veículos que vinham em sentido contrário.

Saímos de Nazca num fim de tarde. Mais duas noites e estaríamos em Lima, a 450 quilômetros. Ainda bem que antecipamos a saída, porque ainda havia claridade suficiente para perceber que, logo adiante, a estrada sumira. A ponte havia sido levada pouco antes pelas águas do rio, numa enchente causada pelas chuvas em sua nascente. Sem sinalização, se estivesse escuro poderíamos ter caído nas águas.

     O jeito foi dar meia-volta. Ao chegarmos à cidade, o óleo escorria do motor, novamente fundido. Havia conserto, mas a um preço bem caro. Sem dinheiro, trancados numa pequena cidade no meio do deserto, saímos a vender o que nos restava: um botijão de gás, equipamentos para revelação de filmes fotográficos, uma câmera. Juntamos o dinheiro suficiente para pagar o mecânico e comer e beber enquanto esperávamos a reabertura da ponte. Sem nada para fazer, chegamos a ir ao puteiro da cidade, um prédio quadrado, com um corredor sombrio onde as “meninas”, feias e velhas, ficavam paradas nas portas dos cubículos, à espera de clientes. Algumas delas deviam ser mais bonitas e jovens, pois havia portas fechadas, com filas de homens em frente a elas (índios mal vestidos, com roupas sujas e surradas) esperando a vez de curtirem os seus minutos de prazer. O calor sufocante e o mau cheiro completavam o quadro. Desistimos das putas e fomos a um bom restaurante jantar.

A poucos quilômetros dali, as Linhas da Nazca nos esperavam, em vão.





Escrito por clovis heberle às 23h00
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Das montanhas(e do frio) para o mar (e o calor)

  Mais um racha. Os cariocas Paulinho e Gastão deixaram o ônibus para ir a Macchu Picchu. Nara foi junto com Gastão, e assim restaram apenas quatro dos onze que saíram de Salta. Da turma de Porto Alegre ficou apenas o Dodo.  Em Arequipa ainda havíamos ganhado algum dinheiro cantando nas praças, mas daí para a frente teríamos que arranjar outro jeito de sobreviver. Aprendemos a fazer colares de cravos de ferrar cavalos (semelhantes a pregos, mas chatos, com cabeças grandes, de forma quadrada). Dobrávamos os cravos com alicates e amarrávamos dois ou três com barbante ou arame bem fino. 

   Na nossa "casa" o clima melhorou bastante. Régis estava eufórico por voltar a ver uma praia de mar, depois de dois meses de frio. Dodo e Pedro, tranqüilos, nunca causaram problemas. Revisamos o ônibus, enchemos o tanque e começamos a descer a cordilheira. À medida que a altitude diminuía, o calor aumentava. Tiramos os casacos, depois os blusões, e bem antes de chegarmos à praia já estávamos de calção e sem camisa, batendo bola no corredor do ônibus. 

    Nosso destino era o balneário de Mejía,  próxima ao porto de Mollendo, onde a classe média e alta de Arequipa tem casas de veraneio. Ao  estacionarmos, na beira da praia, fomos cercados pela gurizada, encantada com aquela novidade num final de temporada tedioso. Voltar a sentir calor e ouvi as ondas  do mar nos deixou eufóricos. A pelada começou alí mesmo - nós contra os peruanos. Régis, o Touro Sentado, logo virou ídolo da turma. Eu, loiro e pálido por tantas semanas sem sol, fui imediatamente apelidado de fantasma

    Ficamos em Mejia por duas semanas. Nossos colares de cravos fizeram o maior sucesso, mais por serem diferentes do que pela beleza ou durabilidade (refizemos vários que se desconjuntaram depois de um ou dois dias de uso...). Trabalhávamos à noite, e de dia vendíamos tudo que havíamos feito. Esgotamos os estoques de "clavos de herraje" das ferragens de Mollendo.  Ganhamos um bom dinheiro, com a vantagem de que éramos poucos e lá não havia drogas para comprar. Comemos e bebemos muito bem, nos divertimos muito com a moçada. Só não tomávamos banho de mar longos  porque a água do Pacífico é gelada em toda a costa do Pacífico, do Chile ao Equador, devido à corrente Humboldt, que sobe direto da Antártida.  Nossa festa terminou com o fim da temporada de veraneio. Já era março, as aulas recomeçaram e a praia ficou vazia. Era hora de partir.



Escrito por clovis heberle às 16h32
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Entrei numa fria (parte 2)

O floripôndio mágico

   Nossa temporada em Arequipa foi tranqüila. A temperatura amena da cidade, o primeiro contato com o Peru e os peruanos, a moçada bacana que nos visitava para ouvir e contar histórias, tudo contribuía para relaxar o ambiente que andava bastante tenso nas últimas semanas. Só não tínhamos drogas. Nem coca, nem LSD, nem maconha, nada. Numa dessas, apareceu um cara dando uma dica quente:  as flores de uma planta chamada floripôndio, cultivada nos jardins da cidade, proporcionavam viagens de até uma semana.  Garantiu que o efeito era o mesmo do peyote, do LSD, dos cogumelos e cactus alucinógenos. Bastava colher e cozinhar.

   E foi o que fizemos. As flores, semelhantes a lírios brancos, foram postas a cozinhar, horas e horas, até se tornarem uma pasta viscosa. Eu olhei para aquilo e dei pra trás.  Recém havia me recuperado de uma terrível infecção intestinal causada por algum prato típico da região. Os outros tomaram, e o efeito foi devastador. Diarréias e vômitos, por dois, três dias. E o pior: nada de viagem. Nem uma tonturazinha... 

    Depois ficamos sabendo que o cozimento foi insuficiente, e os viajantes sentiram apenas os efeitos colaterais da droga. Droga...

    



Escrito por clovis heberle às 20h43
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Arequipa

Oásis a 2300 metros de altitude, num vale das montanhas desérticas rodeadas de vulcões como o Misti( 5822 m) Arequipa é a segunda maior cidade do Peru. Tem cerca de 850 mil habitantes. Foi fundada em 1540 por Francisco Pizarro, e tornou-se um importante polo industrial e comercial.

 



Escrito por clovis heberle às 00h48
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Diário de bordo

        Arequipa, Peru, 23 de fevereiro de 1972

        Hoje fazem dois meses que estou na estrada. Sentado num banco na praça, vendo o a luz do por-de-sol tingir de alaranjado o pico nevado do Misti, o vulcão que emoldura a paisagem da cidade, fico pensando nestes sessenta dias de viagens – sim, no plural - e o que teria acontecido se eu tivesse ficado em Porto Alegre em vez de cruzar o rio Uruguai. Até o dia do embarque eu levava a minha vidinha boa de estudante de jornalismo da Ufrgs. Tirava a faculdade de letra, com o mínimo esforço e o máximo prazer (enquanto havia bar, meu violão ficava lá, embaixo do balcão).

     Ganhava dois salários mínimos trabalhando na Secretaria da Justiça à tarde – redigia memorandos, ofícios, guias de soltura de presos –, e mais um como estagiário, à noite,  da rádio da Universidade, onde fui selecionado num concurso para locutor. Na madrugada, festas e namoro. Ah, eu também dormia algumas horas por noite, para na manhã seguinte estar de novo na faculdade. O quinto semestre vai começar daqui a alguns dias para a minha turma.

    Que mudança. Em vez de um Natal com pinheirinho, presépio e presentes, um vagão de trem no meio do deserto do Chaco, lotado de pessoas bêbadas, inclusive o cobrador. Cambaleando no corredor, ele balbuciava "los boletos, los boleeeetos...". Na virada de ano, em Salta, o primeiro contato com as zambas, chacareras e o rico folclore argentino, ao ritmo do bombo legüero. E muito, muito vinho tinto. Na Bolívia as montanhas, as llamas, os índios dos povoados a nos olharem como extra-terrestres. El Condor Pasa tocado por queñas e charangos num cabaré de Oruro. As primeiras apresentações para grandes públicos. As dificuldades de convivência e de sobrevivência, o carinho e a desconfiança. As drogas com seus os delírios, a euforia, a paranóia, o medo e a fascinação frente ao desconhecido. As decisões difíceis, as rupturas.

    A turma da faculdade ficou lá no altiplano. Eu já não sei o que virá daqui para a frente.

    Cada dia é uma aventura, uma descoberta, um desafio.

    Bem melhor que as aulas de jornalismo e a rotina da repartição pública...



Escrito por clovis heberle às 23h12
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Good times, bad times

    

    Domingo é sempre dia de festa em Copacabana. Depois da missa, os padres saem para benzer os carros levados pelo seus donos até a frente da catedral, e durante todo o dia bolivianos, peruanos e gringos comem, bebem, passeiam pela cidade e visitam a ilha do Sol num dos barcos atracados no embarcadouro.

     Nós também entramos no clima. Tomamos os nossos últimos ácidos, levamos o Grilo para o padre benzer e cada um curtiu o domingão ao seu modo. Dodo, por exemplo, achou que estava numa praia carioca, mesmo que aquela não tivesse calor, areia fininha e muito menos gatinhas bronzeadas de biquini. Tirou toda a roupa e deu um mergulho nas águas geladas do lago, para espanto de alguns cholos e cholitas que, vestidos com seus trajes típicos, almoçavam sentados na praia em torno de uma toalha de mesa onde havia carne de porco assada, legumes e verduras.

     Sem dinheiro para passear de barco, nos limitamos a subir o Cerro do Calvário, com suas doze estações, onde nas sextas-feiras santas é representado o martírio de Cristo. Lá de cima se tem uma vista belíssima do lago, da cidade e da região. À noite, debruçados sobre o mapa, discutimos a próxima etapa da viagem. Nosso plano era ir até Puno, no Peru, ainda nas margens do Titicaca, e de lá seguir até Cusco para chegar a Macchu Picchu. Mas tínhamos um problema: o ônibus, apesar da benção recebida horas atrás, provavelmente não aguentaria mais uma jornada de subidas e descidas por estradas péssimas.

    Na viagem até Puno, nossos temores se confirmaram. O sistema elétrico pifou, voltamos a ter pneus furados, o rendimento do motor era inversamente proporcional ao consumo de gasolina. Nos últimos quilômetros do território boliviano fomos parados várias vezes em postos militares improvisados. Soldados examinavam os papéis do veículo e os nossos documentos, davam a entender que queriam propinas. Para acalmá-los, nós os presenteávamos com pequenas réplicas de PMs feitas de borracha que o setor de Relações Públicas da Brigada Militar havia dado aos cariocas na passagem do ônibus por Porto Alegre. "Recuerdo de la policia de Brasil para ustedes", mentíamos.

   Foi um alívio atravessar a fronteira, no dia 21 de fevereiro. Estávamos chegando a um país democrático, de governo populista empenhado em fazer reformas sociais.  

   A decisão de continuar para o norte ou desistir de Macchu Picchu causou uma nova cisão no nosso já reduzido grupo. Paulinho e Gastão queriam ir de qualquer jeito visitar as ruínas incas. Régis, o dono do ônibus, achou mais sensato descer a Cordilheira em direção ao Litoral – e ao asfalto. A palavra final foi dele, e pegamos a estrada para Arequipa, estreita e pedregosa. Os freios, desgastados pelas descidas intermináveis, funcionavam precariamente. A noite caiu e, sem faróis, tivemos que seguir o último trecho da viagem atrás de um caminhão. Quando ele se afastava, contávamos apenas com a lua cheia – e a proteção divina. A benção funcionou. Avistamos, logo ali, as luzes de Arequipa. A Cordilheira dos Andes ficara para trás,  1.500 metros acima. 



Escrito por clovis heberle às 18h45
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Copacabana, Bolívia

 

À esquerda, a catedral. À direita, o Cerro do Calvário.



Escrito por clovis heberle às 11h11
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A PRINCESINHA DO LAGO

     O que é que Copacabana, cidade boliviana situada junto ao Lago Titicaca, tem a ver com o bairro homônimo do Rio de janeiro? Tudo.

Principal cidade do entorno do lago, Copacabana deve a sua criação à proximidade com a ilha do Sol, considerada sagrada pelos incas, que faziam peregrinações constantes até ela para pedir proteção aos deuses, bem antes da chegada dos espanhóis. O nome deriva de kota kahuana, que na língua aymará significa vista do lago. De embarcadouro de sacerdotes e peregrinos incas, o povoado passou, séculos depois, a local de veneração à Virgem de Copacabana, uma estátua de Nossa Senhora com feições indígenas esculpida em madeira no século XVI por Tito Yupanqui, um nativo convertido ao catolicismo que se dizia descendente direto da família real incaica .

No século XIX, uma réplica da imagem foi levada para o Rio de Janeiro e colocada numa pequena igreja construída por comerciantes espanhóis na área de chácaras e sítios que anos depois virou bairro e adotou o nome da virgem.

    A Copacabana boliviana, situada 155 quilômetros ao norte de La Paz, ainda é ponto de partida para a ilha do Sol. Só que em vez de peregrinos incas, dá abrigo a turistas do mundo todo.

   Ao chegarmos à cidade, no fim de uma tarde de sábado, não fazíamos idéia da origem do seu nome. Os cariocas chegaram a conjecturar que ele se devia à semelhança com o bairro onde nasceram – uma baía  - ce terminava num morro - com bastante esforço, poderia ser comparado ao do Leme. Mas não havia ninguém naquela praia de areia grossa e cascalho, muito menos tomando banho nas águas escuras e geladas do lago. O movimento se concentrava em torno da igreja, onde dezenas de barracas ofereciam pratos típicos, bebidas e recuerdos de la virgen.

     Não tive dificuldades para vender o meu relógio para um devoto peruano que se saía da missa. Consegui 50 soles de oro ( moeda peruana) suficientes para saciar a nossa fome, depois de um dia de viagem em jejum. Para mim, aquela refeição teve um significado especial: me ensinou a evitar, sempre que possível, as comidas típicas vendidas em quiosques sem maiores cuidados higiênicos...



Escrito por clovis heberle às 00h45
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Barco de Totora

 

O Lago Titicaca, com cerca de 8300 km², é o lago navegável mais alto do mundo e o segundo em extensão da América Latina. Está a 3821 m acima do nível do mar, tem uma profundidade média de 140 a 180 m.



Escrito por clovis heberle às 00h35
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