REDWOOD
" Xuxai, mister? Xuxai?” Custei a entender que aqueles meninos índios que me cercaram ao desembarcar em Otavalo estavam perguntando, em inglês com sotaque quíchua, se eu queria engraxar os sapatos. Um dos maiores centros de artesanato do país, Otavalo costuma receber milhares de turistas, especialmente aos sábados, dia de feira, quando os índios otavaleños descem das montanhas para exporem seus ponchos e outros produtos no mercado.
Agradeci (em espanhol) e tratamos de produrar um hotel para ficar aquela noite. Não podíamos perder tempo: era sábado, a cidade fervilhava e nosso dinheiro havia acabado. Deixamos as mochilas no hotel e fomos para a praça, onde repetimos o nosso ritual: comecei a cantar e em seguida já estávamos cercados. Entre os indígenas que ouviam em silêncio respeitoso os meus sambas e bossa novas havia um gringo de cerca de dois metros de altura, olhos azuis, cabelos compridos. Depois de algumas músicas, já havia público suficiente para uma pausa. Dedeco fez o pedido de colaborações, o pessoal foi jogando as suas notas e moedas e saindo. Só o gringo ficou alí, e se apresentou:
“ My name is Redwood – or madera roja, como quieran” – disse, dando uma risada. Nos apresentamos e ele contou que adora música brasileira, é californiano, mora em Otavalo há quase um ano, se apaixonou pelo Equador e pretende continuar vivendo no país enquanto puder. A empatia entre nós foi imediata, facilitada por nossa fluência em inglês. Ele nos convidou para ir até a casa onde morava, a poucas quadras dali, no primeiro andar de um prédio de dois pisos. A casa, de três quartos, tinha uma sala grande, com uma mesa de madeira maciça no centro. Em cima da mesa, um saco com fumo – "colombiano, de primeira", disse Redwood, e nos ofereceu um enorme baseado.
Moravam alí também os norteamericanos Jimmy, do Dakota do Norte, Skip, Steve e Phil, da Califórnia, e o colombiano Silvio, o Lobo. O mexicano Luís estava só de passagem. Era normal americanos, europeus, australianos e até brasileiros ficarem ali um ou mais dias, até seguirem viagem.
Embalados pela excelente maconha colombiana (punto rojo, uma das melhores do mundo, explicaram nossos anfitriões), em seguida estávamos numa conversa animadíssima. Cantei algumas músicas, enquanto Pedro foi para a parede forrada com papel que servia de mural onde os visitantes escreviam suas impressões e recados. Traduziu para o inglês, na hora, uma de suas poesias. Pedro é um grande poeta, e todos ficaram encantados com a poesia inscrita no mural.
O dia anoitecia e Redwood perguntou onde estávamos hospedados. Nos convidou para ficar com eles enquanto estivéssemos na cidade. Foi conosco até o hotel, pegamos as mochilas e batemos em retirada, sob os protestos do funcionário da portaria, que exigia o pagamento de uma diária.
Aquela casa em Otavalo foi o nosso lar pelos próximos meses.
Escrito por clovis heberle às 23h25
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O MAJESTOSO VULCÃO CAYAMBE

A vida em Quito até que estava boa. As moedas que caíam no estojo do violão depois das minhas atuações nas ruas, praças, bares e restaurantes, garantiam a nossa alimentação e o pagamento do hoteleco onde estávamos hospedados. Eu já estava mais auto-confiante (nos primeiros dias a timidez quase me impedia de soltar a voz), em parte graças ao apoio do Dedeco e do Pedro, que se encarregavam de me apresentar e, no final, pedir as contribuições dos hermanos a estes jovens estudantes brasileiros em viagem de estudos.
Mas o apelo de continuar para o norte nos impeliu a voltar para a rodovia Pan-Americana. No Equador ela é conhecida como a avenida dos Vulcões, pois boa parte dos 16 vulcões do território equatoriano são visíveis dos dois lados da estrada.
Pegamos um ônibus até a saída da cidade de manhã e não esperamos muito até parar um carrão para nos dar carona. Maravilha. Nos acomodamos nos bancos de couro e logo que o motorista arrancou nos demos conta que havia algo errado com ele. Não falava nada e corria como um louco pela estrada cheia de curvas. Nas mais fechadas quase perdia o controle, ia de acostamento a acostamento. Estava completamente bêbado. Pedimos aos gritos para ele parar. Descemos meio tontos e ele continuou em disparada.
A próxima carona nos deixou em Cayambe, já no hemisfério norte, a poucos metros da linha do equador. Seria apenas mais uma cidadezinha de 3 mil e poucos habitantes se não fosse o vulcão de mesmo nome, situado junto dela. É uma montanha majestosa. Todo o seu topo, que chega a uma altitude de quase sete mil metros, é coberto de gelo e neve. Paramos para almoçar e contemplar o Cayambe.
Escrito por clovis heberle às 21h48
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UM PEQUENO GRANDE PAÍS
Um amigo equatoriano garantiu, provavelmente para nos impressionar, que num dia sem nuvens é possível avistar todo o território nacional do alto dos 6.310 metros do Chimborazo, vulcão localizado no centro do país. O Equador realmente é pequeno – 13 milhões de habitantes em 284 mil quilômetros quadrados, um pouco mais que o Uruguai, com seus 176 mil quilômetros quadrados. Em poucas horas dá para chegar a qualquer uma das suas fronteiras – com a Colômbia, ao norte, e com o Peru ao sul e leste. Ou descer das montanhas geladas até as praias no oceano Pacífico, onde sempre faz calor.
A cordilheira dos Andes atravessa o país no sentido sul-norte, com altitudes em torno de 3 mil metros. Apesar da proximidade da linha equatorial, que corta o país ao meio, lá sempre faz frio, amenizado pelo ar seco e pelo sol forte (é preciso usar chapéu ou protetor solar para não queimar a pele). A região leste é de floresta, e faz parte da bacia amazônica. Ocupa ¼ do território. Lá estão localizadas as jazidas de petróleo. A faixa oeste é uma planície costeira de clima tropical. Há ainda as ilhas Galápagos, onde são preservadas várias espécies de répteis e aves já extintas em outras partes do planeta.
Selva, montanha, praias. São três países dentro de um só.
Escrito por clovis heberle às 00h08
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MÚSICOS DE RUA EM QUITO
 
Escrito por clovis heberle às 22h41
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CARREIRA SOLO
"O dinheiro acabou". A frase, dita pelo Dedeco, teve o efeito de uma ducha fria e me trouxe de volta à realidade, depois de alguns dias fora do ar, me recompondo dos efeitos dos excessos de drogas em Lima. Meus novos amigos haviam me poupado de suas preocupações com coisas banais como arranjar dinheiro para comer e pagar o hotel, mas não havia mais como esconder que estávamos a zero.
O hotel em que nos hospedamos, na cidade histórica, um prédio antigo de quartos enormes, dava vista para o conjunto arquitetônico dos séculos 17, 18 e 19, razoavelmente conservado e agora preservado pela Unesco. A diária era barata, e o funcionário não exigiu pagamento adiantado. Decidimos sair para “manguear” - pedir dinheiro na rua – e conhecer a cidade. Conseguimos o suficiente para comprar pão, bananas e um pacote de leite (foi a primeira fez que vi leite em pacotes tetrapak. No Brasil só havia leite em saquinhos ou litros de vidro). Foi a nossa janta, e no dia seguinte o café da manhã. Repetimos o cardápio muitas outras vezes. Além de custar pouco, é um bom alimento, e contrabalançava aquelas comidas gordurosas que comíamos nas bancas de rua.
Como não podíamos viver só a pão, banana e leite, e as diárias do hotel estavam correndo, comecei a minha carreira solo. Cantava nas ruas, e no horário do almoço ia de restaurante em restaurante. Falávamos com o gerente, eu dava uma pequena demonstração da minha música, e se ele aprovasse (o que quase sempre acontecia) o show começava, entre as mesas. À noite, percorríamos os bares. Nos primeiros dias eu misturava estilos, cantava música brasileira e alguns boleros em espanhol que conhecia, até sentir quais as músicas que mais agradavam os hermanos equatorianos. Nas ruas a favorita era Jesus Cristo, de Roberto Carlos. Devemos a Roberto muitos almoços e jantares – o povo ficava fascinado, vendo aquele loiro cabeludo cantando "Jesus Cristo, eu estou aqui" em português (fiz também uma versão em espanhol). Nos restaurantes e bares, os clientes preferiam sambas e algumas músicas de bossa nova conhecidas como Garota de Ipanema, Felicidade (“Tristeza não tem fim, felicidade sim”) e Manhã de Carnaval, popularizada no filme Orfeu do Carnaval.
Quando havia clima, improvisávamos uma sessão de macumba. Pedro e Dedeco me davam uma força na percussão (eu ainda tinha o atabaque, vendido depois) e na coreografia, e eu cantava os pontos que havia aprendido com Régis (o carioca). No fim da jornada, conseguíamos o suficiente para pagar o hotel, comer e passear pela cidade. Dava também para pequenos luxos, como comprar cigarros americanos e tomar banho a cada três ou quatro dias nos banheiros públicos. Devido às temperaturas baixas, os chuveiros elétricos, baratos e fáceis de instalar, não aquecem o suficiente. Só as casas de classe média para cima tinham aquecedores a gás ou à lenha. O povão tomava banho em banheiros onde, além de chuveiros quentes privativos, eram fornecidos sabonetes e toalhas. Um luxo, por algumas moedas.
Foi bem difícil negociar a câmera filmadora furtada em Lima. Começamos pedindo US$ 3 mil (o que achávamos que ela valia, pelos preços que havíamos visto nas lojas), mas como éramos estrangeiros e não tínhamos nota de compra nem qualquer documento de ingresso do equipamento no país, acabamos torrando-a por US$ 300 para um funcionário do Banco Central. Ainda eram um bom dinheiro, mas acabou o nosso sonho de comprar passagens de avião ou de navio. Aproveitamos para visitar o Museu do Ouro, imensa coleção de jóias da época incaica e pré-incaica localizada no prédio do banco. As mais valiosas ficam dentro de um enorme cofre, aberto por alguns minutos para que os turistas as vejam, faiscando sob luzes feéricas. É impressionante a habilidade dos ourives incas no manuseio de ouro, prata e platina.
Na temporada que passamos em Quito nossa principal atividade, além das apresentações artístico-culturais, era uma forma de ir para os Estados Unidos, a Europa ou os países socialistas. Peregrinamos pelas embaixadas em busca de visto, mas nenhum país se interessou em receber jovens sem dinheiro, profissão, endereço fixo ou objetivo definido na vida. Acabamos nos conformando em seguir viagem por terra, de carona em carona, de pueblo em pueblo. Iríamos até a Cartagena, porto caribenho da Colômbia, para tentar um emprego num barco que fosse rumo ao norte.
Mas o destino tinha outros planos para nós ...
Escrito por clovis heberle às 22h38
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Quito
A praça da Independência (foto), com o Palácio do Governo ao fundo.
Quito está a 2850 metros acima do nível do mar. Sua população é de 1,4 milhão de habitantes. Fica 22 km ao sul da linha
do Equador. Devido à altitude e localização da cidade, na encosta do vulcão Pichincha (ainda em atividade) o clima é
razoavelmente constante, com uma temperatura máxima ao redor dos 21º C em qualquer época do ano.
Escrito por clovis heberle às 09h05
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De volta à Cordilheira
A melhor carona para viagens curtas é na caçamba de uma camionete – desde que não esteja chovendo, e a estrada seja asfaltada. A paisagem está à toda volta, e não é preciso(nem possível) falar com os motoristas, muitas vezes chatos e até inconvenientes. É só embarcar, desembarcar, agradecer e tchau. E dá até para fumar um baseado - Dedeco desenvolveu a técnica de fechar cigarros perfeitos apesar do vento e dos solavancos...
Também viajamos em carrocerias de caminhões. A melhor delas foi sobre uma carga de folhas. Viajamos deitados, olhando para as nuvens, depois de fumar um enorme charuto.
A bordo de camionetes subimos novamente a cordilheira dos Andes, de Guaiaquil até Quito, e nos meses seguintes nos deslocamos por este país que nos conquistou pela beleza de seus cenários – litoral, montanhas, vulcões e selva – e pela hospitalidade de seu povo.
De carona em carona, o Equador foi se revelando. No início, as enormes plantações de banana, um dos principais produtos de exportação do país. Depois, as encostas das montanhas, cultivadas em quadrados coloridos, e, sempre subindo, os vulcões, com picos coberto de neve. Conversávamos pouco, extasiados com a paisagem. Ao meio dia já estávamos em Santo Domingo de los Colorados, perto da capital – não ficamos parados mais do que alguns minutos para alguém aceitar nosso pedido de carona – quando a camionete parou e o casal que nos levava disse que faria uma pausa para almoçar e nos convidou a entrar com eles no restaurante. Fazia muito tempo que não tínhamos um almoço decente, mas agradecemos.
- Vamos ficar por aqui mesmo, esperando – eu disse, com evidente cara de fome.
O casal insistiu, deixando claro que pagaria a conta. Aceitamos um tanto desconfiados, mas o almoço foi saboroso e agradável. Conversamos bastante sobre nós e nossos países, e depois seguimos viagem, felizes. Foi a primeira de tantas demonstrações de cordialidade dos equatorianos. Chegamos a Quito relaxados e confiantes. Já não tínhamos pressa em deixar o país.
Escrito por clovis heberle às 01h06
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Equador: hello, good bye
Minha primeira impressão do Equador foi de que iríamos atravessá-lo o rápido possível – além de ser desconhecido, em parte por não ter fronteira com o Brasil, ele é pequeno, pouco maior que o estado do Rio Grande do Sul. Achei Guaiaquil (maior cidade do país, hoje com quase 2 milhões de habitantes), onde passei o primeiro dia em solo equatoriano, uma cidade suja, feia, insegura, apesar de só ter conhecido a zona próxima ao porto, e todos os portos são semelhantes em sujeira, prostituição e gente mal-intencionada em busca de otários.
Depois de uma noite praticamente em claro, tudo que queríamos era uma cama dormir. Andamos de hoteleco em hoteleco, mas nosso dinheiro não dava para pagar a diária, nem mesmo naqueles com prostitutas na porta oferecendo seus serviços por meia dúzia de sucres (a moeda equatoriana, aprendemos logo, era o sucre). Estávamos quase conformados a passar a noite numa praça quando o Dedeco voltou de uma inspeção com um vasto sorriso no rosto: havia um, alí perto, à altura das nossas possibilidades. Pagamos adiantado na portaria sem conferir o que nos esperava. Não queríamos nada além de uma boa noite de sono.
Subimos as escadas atrás de uma velha senhora, que nos levou até o nosso “quarto”: um cubículo formado por divisórias de no máximo dois metros de altura, onde mal cabiam os três colchonetes onde nos acomodamos. Era um andar inteiro subdividido em cubículos, onde os hóspedes eram amontoados. Ainda era cedo quando chegamos – recém anoitecia – e o “hotel” ainda estava vazio e silencioso. Mas logo começaram a chegar os nossos vizinhos – casais falando alto, famílias com crianças chorando, grupos de rapazes. O local não demorou a lotar, e eram dezenas (ou centenas) de pessoas misturando suas vozes, odores e, pouco ao pouco, roncos.
Exaustos, acabamos dormindo. Foi uma boa noite de sono.
Escrito por clovis heberle às 23h49
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UMA NOITE NUMA CASCA DE NOZ
Atravessamos o golfo de Guayaquil (veja no mapa. Tumbes está indicado naquela bola branca embaixo, à esquerda) num barco de madeira, parecido com aqueles que fazem o transporte de passageiros nos rios da Amazônia. Como não tínhamos redes (nem sabíamos que o barco não tinha acomodações, apenas os ganchos para redes), nos acomodamos no chão mesmo, na proa do barco. Anoitecia quando embarcamos. A viagem durou toda a noite, e ao chegarmos a Guayaquil, de manhã, estávamos exaustos e mareados.
Escrito por clovis heberle às 14h35
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DIÁRIO DE BORDO
2 de abril de 1972
Estamos em Tumbes, na fronteira do Equador. Foi fácil pegar carona para chegar até aqui, e já estou adaptado aos meus novos companheiros de viagem. É interessante como às vezes mal se conhece alguém e parece que se está junto há anos. Pedro e Dedeco são tranqüilos, bem-humorados, seguros de si, enfrentam as dificuldades sem stress. Que diferença dos rapazes de Copacabana, sempre tensos, desconfiados, destemperados verbais. Não sei se não teria sido melhor termos continuado sem eles, em Salta, na Argentina. Naquela época nos virávamos bem, tínhamos um show ensaiado, éramos um grupo homogêno. Acabamos optando pela solução mais confortável – tínhamos passado alguns dias dormindo ao relento, e na última noite caiu uma chuva forte. Estávamos no meio do mato, à beira de um riacho, e tivemos que sair correndo. A possibilidade de viajar num ônibus equipado com camas e cozinha pareceu exclente naquele momento, mas logo começaram as complicações..
Pedro e Dedeco são duas pessoas totalmente diferentes um do outro. Pedro é poeta, introvertido, culto, formado em filosofia, enquanto Dedeco, fotógrafo e estudante de sociologia, tem uma enorme facilidade de comunicação, de abordar pessoas e resolver a questões do dia-a-dia. São amigos de infância e se entendem muito bem. Dedeco chama Pedro de major. Até pensei que ele tinha sido militar, e perguntei isso a eles. Caíram na gargalhada. O cara fora excluído do serviço militar porque não fazia nada do que os superiores mandavam. Tem horror a trabalho, a esforço físico, a disciplina, a cumprir ordens. Temos conversado muito, e me parece que os dois estão gostando da minha companhia.
Alguns quilômetros antes de chegarmos a Tumbes a paisagem mudou completamente. De pé na caçamba da camionete em que viajávamos, vimos o verde nos envolver, depois de 45 dias no deserto. Começamos a dar gargalhadas, nos abraçamos e gritamos de felicidade. O verde, finalmente. Nascido e criado no Sul do Brasil, jamais pensei
que um dia a visão de campos e florestas me comoveria tanto.
Escrito por clovis heberle às 17h27
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40 DIAS NO DESERTO

DURANTE OS 40 DIAS QUE PASSEI NO DESERTO PERUANO, A PAISAGEM DE DUNAS DE AREIA
SÓ ERA INTERROMPIDA NAS QUEBRADAS, VALES CAVADOS PELOS RIACHOS QUE DESCEM DA
CORDILHEIRA DOS ANDES. NA FOTO, UMA QUEBRADA PRÓXIMA A TRUJILLO, NORTE DO PERU.
Escrito por clovis heberle às 23h42
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FUGA DE LIMA
Pepe morava perto de onde estávamos estacionados, no bairro Miraflores, e todos os dias nos visitava. Tinha cerca de 20 anos, não estudava nem trabalhava. Passava os dias conosco, falando de seus projetos e sonhos. Vivia no mundo da lua - tinha sinais de esquizofrenia, mas ali ninguém era exatamente normal, e o achávamos apenas muito chato. Quando Régis, Dodo e os outros viajaram e eu, Pedro e Dedeco ficamos sem teto, Pepe nos convidou a ir para sua casa. Havia um quarto de hóspedes e seus pais haviam concordado em hospedar os novos amigos de seu filho por uns dias.
Era um apartamento independente da casa e ficara vago depois que um dos irmãos casou e se mudou. Ficamos até tarde da noite numa espécie de laboratório, instalado na garagem, onde ele passava o tempo imerso em suas invenções. A mais estranha delas era uma engenhoca que unia som e cor – as luzes projetadas na parede variavam de intensidade e cor de acordo com a música. Na verdade, só ele percebia os efeitos mágicos do invento – e exultava de alegria. Nós apenas ríamos e fingíamos apreciar o espetáculo. Encerrada a sessão, Pepe nos falou de seu novo projeto: um filme em bitola Super 8. Ele já havia escrito o roteiro e comprado a câmera, estava ansioso para começar a rodagem e nos convidou para participar da produção. Topamos a proposta na hora e elaboramos o roteiro das gravações, que começariam já no dia seguinte. Ao nos retirarmos para dormir, sugerimos levar conosco a câmera para estudá-la melhor e fazer uma “macumba”, costume brasileiro para dar sorte. Nosso plano, arquitetado em sussurros enquanto o lunático foi ao banheiro, era fugir com a câmera para vendê-la.
Tivemos uma certa dificuldade para separá-lo do aparelho, mas acabamos conseguindo. Dormimos algumas horas e antes de amanhecer já estávamos na estação rodoviária. Compramos passagens no primeiro horário para a cidade mais próxima e partimos, eufóricos. Só pensávamos em quanto dinheiro conseguiríamos com a venda. Será que seria suficiente para irmos até os Estados Unidos?
Escrito por clovis heberle às 11h17
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A VIAGEM CONTINUA, SEM O GRILO
Cumprida a sua missão, o Grilo Boca de Ouro – ou o que restava daquele motor-home que iniciara a viagem equipadíssimo e agora estava depenado, sem condições de rodar – só esperava o embarque de seus antigos donos de volta para o Brasil para a merecida aposentadoria. Com a ajuda da embaixada brasileira, havia sido doado para um Clube de Caça e Pesca de Lima.
Numa dessas idas à embaixada, em que também tratava de sua inclusão num vôo do Correio Aéreo Nacional para o Rio de Janeiro, Dodo encontrou dois amigos de infância de Cachoeira do Sul, o Pedro e o Dedeco. Eles haviam sido roubados no Chile, e estavam sem dinheiro nem documentos. Queriam continuar na estrada – haviam saído há pouco tempo de Porto Alegre - , mas estavam prestes a desistir,a menos que algo inesperado acontecesse. Conseguiram novos passaportes, vieram com Dodo conhecer a turma do ônibus e fomos apresentados. Estávamos na mesma situação: eu também não tinha dinheiro, nem companhia para continuar viajando, pois todos que estavam comigo já haviam arrumado as mochilas para voltar. Pior: ainda não havia me recuperado da desastrada experiência com Artane.
Batemos um bom papo, descobrimos afinidades, houve empatia imediata. Pedro, dez anos mais velho que eu, poeta e formado em filosofia, e Dedeco, fotógrafo, da minha idade, também estavam curtindo cada momento daquela descoberta do continente sul-americano. Peguei o vilolão, comecei a cantar, e a solução surgiu: eu poderia cantar e ganhar dinheiro para irmos em frente, os três. Naquela tarde começou uma parceria que depois virou amizade e uma relação fraterna que sobreviveu, nos meses seguintes, às piores dificuldades.
Escrito por clovis heberle às 17h49
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ENTREI NUMA FRIAAAAAAAAAA (parte 3)
Artane é um medicamento controladíssimo, usado para conter as convulsões de epilépticos. A dosagem tem que ser avaliada cuidadosamente pelo médico. Se for maior que a necessária, pode causar transtornos no cérebro, como alucinações. Alguém me ofereceu Artane. Eu tinha uma dose de LSD, tomei junto. Foram dois dias (ou três) de alucinações, alternadas com horas de sono. Eu andava pelas ruas de Lima e de repente via as árvores se tingirem de vermelho, se retorcerem e sumirem na calçada. Olhava para os lados e estava deitado no beliche do ônibus.
Já não distinguia o real do imaginário. Se estava falando com as pessoas ou se era sonho. Já não sabia se eu estava ali ou se daqui a pouco despertaria. Meu cérebro, afetado pela soma de LSD com Artane, não conseguia dividir consciência/sonho/pesadelo/realidade.
Voltei aos poucos. Nos primeiros dias, a memória se limitava a minutos.
Na cozinha (para tomar um copo d'água): “O que vim mesmo fazer aqui?”
Num grupo de conhecidos: “Quem são estes caras????"
Minha memória nunca mais foi a mesma depois do Artane.
Eu advirto: só tome Artane se o médico prescrever. Não vale a pena. É muito estrago.
Escrito por clovis heberle às 00h17
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