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Blog de clovis.heberle
 


REVOLUÇÃO LISÉRGICA

     O fim de tarde tornava a cidade mais sombria e gélida. Ficamos num hotel do centro histórico, velho, decadente e barato, um prédio retangular de dois andares com corredores voltados para o pátio interior. Pouco depois de nos instalarmos no quarto de três camas, o rapaz que estava na rodoviária esperando eventuais turistas para ganhar alguns trocados e nos trouxe até o hotel bateu na porta. ''Há um senhor muito importante no quarto 12 que quer conhecer vocês'', disse. Caminhamos atrás dele pelo corredor e entramos num quarto onde um grupo de indígenas sentados no chão cercava um homem de cerca de 40 anos, branco, quase careca, de olhos azuis, deitado na cama junto com uma mulher e uma criança de no máximo três anos, com o corpo coberto de feridas, provavelmente causadas por desnutrição . ''Este é Carlos, nosso mestre, esta é sua esposa e o menino é o filho deles''.

     Nos acomodamos no chão e fumamos vários baseados com eles. Ainda não tínha ''aterrissado'' do ácido, e aquela maconha fez um efeito que eu nunca havia sentido antes. Todos os meus sentidos foram ativados. Eu via auréolas de luz amarelada em torno das pessoas e objetos. ''É punto rojo, feita só de flores de uma das mais potentes espécies de marijuana do mundo, cultivada na Colômbia'', explicou Carlos, vendo que estávamos bastante altos.

     Líder político equatoriano, ainda estudante ele tinha pertencido ao partido comunista. Quando Mao Tse Tung rompeu com os soviéticos, Carlos assumiu a liderança da dissidência maoísta. Esteve na China, se encontrou com Mao e voltou para o Equador disposto a tomar o poder. Descreveu em detalhes o encontro.

- Mao falou de política, de sonhos, de dragões. Adivinhou meus pensamentos, não precisei dizer nada, eu estava aterrorizado com aquele homem me olhando com olhos semicerrados. Parecia um gato. O presidente gato.

      Anos mais tarde, Carlos se desligou dos maoístas para criar seu próprio partido, formado apenas por indígenas, maioria absoluta (70%) da população nacional. Ele já não queria uma revolta de camponeses e operários contra a burguesia. Seu projeto era mais ambicioso: liderar uma revolução na mente das pessoas. Para isso, ele só precisava de uma coisa: LSD. Milhares, milhões de doses de LSD, distribuídas como hóstias a todos os equatorianos.

     Nós ouviámos aquilo boquiabertos. Ele falava sem parar – seu encontro com Mao, as idéias, projetos, o país que sonhava. Volta e meia perguntava: ''no es cierto''? E os seus discípulos, em coro, respondiam: ''cierto, maestro''. Depois de algumas horas de divagações, Carlos explicou qual seria o nosso papel na sua revolução. Com nossos contatos com os ''gringos'' – o rapaz que nos levara até o hotel, militante do grupo dele, havia contado que vivíamos com norteamericanos – nós seríamos os intermediários da importação de cinco mil doses de ácido para ele iniciar o levante.

    O plano era simples: colocar ácido lisérgico nas caixas de água do palácio do governo. Todos os que tomassem café, água, chá, ou almoçassem os pratos preparados na cozinha do palácio passariam a viajar sob o efeito da droga. O grupo dele aproveitaria a confusão para tomar o poder, sem luta, sem mortes. O presidente, os ministros, os comandantes militares, todos ficariam horas e horas doidões e, de qualquer forma, nunca mais seriam os mesmos. Depois começaria a distribuição maciça entre a população. O Equador seria o primeiro país do mundo de cabeça feita.

À meia noite, o sino da igreja começou a bater. Quietos, ouvimos doze badaladas, que reboaram nas paredes dos prédios coloniais. Quando terminaram, Carlos rompeu o silêncio e gritou:  ''Alma mia, que estás haciendo em el mundo?''

Ele mesmo respondeu, baixinho: ''soñaaaaaaaaaando, soñaaaaaaaaaando''.

     Carlos foi preso dois meses depois, junto com 32 seguidores, para quem distribuía doses de LSD.  O sonho da revolução lisérgica acabou.





Escrito por clovis heberle às 00h23
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TULCÁN

O CEMITÉRIO, COM SUAS ESCULTURAS FEITAS EM CIPRESTES, SÃO A MAIOR ATRAÇÃO DA CIDADE, NA FRONTEIRA COM A COLÔMBIA 



Escrito por clovis heberle às 23h27
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UM PEDAÇO DA ÁFRICA


    Comecei a sentir calor. Olhei para os lados e vi os passageiros tirando os casacos e blusões. Quanto mais o ônibus descia, contornando as montanhas, maior o calor. Depois de 35 quilômetros, estávamos a apenas 1.500 metros acima do nível do mar, no Valle del Chota (pronunciem tchôta, ok?). A paisagem havia mudado radicalmente: grudado na janela, eu via plantações de cana, café, banana e outras culturas tropicais. De quando em quando, choupanas com cobertura de palha. Era efeito do ácido ou havíamos chegado à África?

    A explicação veio quando desembarcamos para uma parada de meia hora num povoado miserável à beira de um rio, e nos vimos cercados de negros, a maioria crianças. Trazidos pelos jesuítas no século XVII como escravos para substituir os índios, dizimados pelas jornadas de trabalho e as doenças trazidas pelos conquistadores, os africanos se fixaram no vale, uma das regiões mais pobres do Equador, por não se adaptarem ao frio do altiplano. Isolados, mantiveram intacta a sua cultura, e se tornaram conhecidos pela música e a dança de ritmo quente, semelhante à cúmbia colombiana. Quando viram o meu violão, as crianças perguntaram de onde éramos, e ficaram encantadas quando eu disse que éramos brasileiros. Sabiam mais da seleção e dos times do Brasil do que nós, e pediram para eu cantar alguma música de Roberto Carlos. Foi uma festa, que só acabou quando embarcamos para Tulcán, 89 quilômetros serra acima.



Escrito por clovis heberle às 21h15
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VIAGEM À FRONTEIRA

 

 


      O visto venceu, o fumo acabou. Estava na hora de ir até a fronteira com a Colômbia para carimbar o passaporte e abastecer a casa – a maconha equatoriana era rara e de má qualidade. A cidade mais próxima para isso é Tulcán, a 135 quilômetros de distância, gêmea da colombiana Ipiales. Pegamos uma carona num domingo de manhã até a vizinha Ibarra, mas lá ficamos por mais de duas horas na estrada esperando alguém que nos levasse para o norte. Desanimados e com fome, voltamos para a praça central pensando em desistir, pois nos disseram que aos domingos o tráfego até a fronteira é escasso. Não tínhamos dinheiro para ir de ônibus nem para comer.

    Sentamos num banco e o Dedeco se lembrou que ainda nos restava um ácido da nossa última viagem, com os americanos. Partiu em três partes, tomamos e eu comecei a tocar violão e cantarolar baixinho. Aos poucos fomos rodeados pelo pessoal que passava na praça ou estava ali se aquecendo ao sol. Passei a cantar para eles, o Pedro abriu a caixa do violão para receber as contribuições e, depois de algumas músicas, fez a apresentação do artista brasileño em turnê pela América Latina. Surpresos, vimos choverem moedas e notas. Mais algumas músicas, outro discurso e mais uma chuva de dinheiro. Podíamos ter ficado toda a tarde alí, mas o ônibus saía para Tulcán em meia hora. Encerrei o show, agradeci sob aplausos e fomos para um bar para comer e contar a ''féria'' do dia: era suficiente para comprar as passagens e sobrava o suficiente para o resto da viagem. Embarcamos, felizes. O LSD havia mudado a nossa sorte. 




Escrito por clovis heberle às 00h11
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A ESCALADA DO IMBABURA

A ESCALADA FOI POR ESTA FACE DA MONTANHA



Escrito por clovis heberle às 00h09
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A MAIS LONGA DAS NOITES

 


Nossa casa (sim, nossa, pois já estávamos ajudando a pagar o aluguel...) em Otavalo tinha a área da cozinha separada das outras dependências. A ligação entre as duas alas era feita por um corredor ao ar livre, que também dava acesso à escada (morávamos no andar de cima). Costumávamos ficar no corredor, conversando enquanto esperávamos o almoço ou o jantar (na verdade era uma almojanta, pois só se fazia comida uma vez por dia, à tarde ou à noite), preparado no fogão à lenha. De dia nos aquecíamos ao sol, à noite curtíamos a lua e as estrelas.

As noites de lua cheia proporcionavam um espetáculo a mais: o brilho intenso da luz da lua refletida na coroa da neve acumulada nas bordas da cratera do vulcão Imbabura. Aquela imagem nos fascinava. Escalar a montanha para ver a cratera onde os índios fazem seus rituais e apreciar a paisagem lá do alto virou uma idéia fixa. Numa dessas noites, Pedro, Jimmy e eu decidimos: vamos, e amanhã mesmo.

    Sem nenhuma experiência - e muito menos preparo físico – para subir quase dois mil metros numa atmosfera rarefeita, achamos que chegaríamos ao topo em três, no máximo quatro horas. Levantamos cedo e pegamos um ônibus até San Pablo, lugarejo vizinho situado às margens do belíssimo lago de mesmo nome, de onde a subida é mais fácil. Nas mochilas apenas uma barraca tipo iglu, uma corda, um cantil de suco de laranja e uma lata de sardinha. Ótimo para um piquenique de fim de semana.

       Atravessamos lavouras de batata e milho e chegamos a uma faixa de vegetação rala sem sentir. Falávamos muito, cantávamos, parávamos para fumar um baseado. Mas a subida se tornou cada vez mais íngreme. Parávamos com cada vez maior freqüência, já havíamos bebido o suco e ainda faltava muito para chegar. Nos últimos 500 metros tínhamos que nos agarrar às pedras e com as mãos e tomar cuidado para não despencar.

    Estávamos exaustos, sedentos e famintos quando atingimos o topo. Já anoitecia e as nuvens mal nos deixavam enxergar alguns metros à frente. Descemos a ladeira rumo ao centro da cratera para armar a barraca, pois o vento era muito forte. De repente a névoa se dissipou e surgiu à nossa frente um poço, formado pela chuva e o degelo da neve. Corremos até ele e bebemos deitados, com o rosto mergulhado naquela água puríssima.

Armamos a barraca, comemos a sardinha e tratamos de nos acomodar para passar a noite – três marmanjos no espaço de um. Mas apesar do cansaço, não deu para dormir, nem cochilar. O frio era muito intenso – certamente alguns graus abaixo de zero – e o vento açoitava as paredes do nosso micro iglu. O calor dos nossos corpos tornou a temperatura do lado de dentro muito maior que a de fora, e as paredes de plástico passaram a ''suar'', encharcando o colchonete. Como custou a passar cada minuto daquelas doze horas que passamos alí, enregelados e encharcados, sem poder se mexer.

     Levantamos logo que amanheceu, com muita dificuldade por causa da hipotermia. Tratamos de sair dali o quanto antes, pois a neblina envolvia a cratera e não se via nada. Pegamos as nossas coisas e começamos a descer o penhasco. Foi a minha primeira e última experiência como montanhista.



Escrito por clovis heberle às 00h03
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FRASES, POESIAS, RECADOS DEIXADOS NO MURAL DA NOSSA CASA EM OTAVALO

'' U MAY HAVE A MILLION DOLLARS

U MAY DRIVE A CADILLAC

U MAY HAVE ENUF MONEY

TO BUY EVERITHING U LIKE

BUT I DON'T CARE HOW RICH U ARE

I DON'T CARE

WHEN IT ALL COMES DOWN

U GOT TO GO BACK TO MOTHER EARTH.''

Memphis Slim

 DE JOHANNA, A HOLANDESA, PARA O DEDECO

''Mamma, mamma,

Many worlds I've travelled since I first left home''

Grateful Dead

''WE SIT IN A ROOMPASSING TIME

AROUND A LITTLE PIPE'' 

Anônimo...

''If only the world could feel the power of harmony''. W.A. Mozart

 

 

 



Escrito por clovis heberle às 20h40
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FIM DE FÉRIAS OU... EU ACREDITO EM MAGIA

       Nada pior do que esperar carona numa estrada deserta, num final de tarde, ameaçando chover. Mas nosso dinheiro havia acabado, e não havia mais nada para fazer em Baños, onde ninguém estava interessado em pagar, nem que fosse alguns centavos, para ouvir música brasileira. A primeira carona que apareceu para voltarmos a Otavalo nos deixou a apenas 30 quilômetros da cidade, no meio do nada. Estávamos há horas implorando para que alguém que nos tirasse dali, mas à medida que anoitecia o movimento diminuía. Os primeiros pingos de chuva começaram a cair. Estávamos desesperados: como passar a noite na chuva, sem uma casa ou povoado por perto?

       Nisso, uma picape tripulada por três rapazes com chapéus de caubói parou. Estavam indo na direção de Quito, sim. Subimos na caçamba, aliviados. Poucos minutos depois, o que estava na janela do carona estendeu a mão para trás e, mesmo com o carro em movimento, nos passou um enorme baseado aceso. Ufa! Que alívio! Mais alguns quilômetros e ... outro baseado.

       Já havia anoitecido quando a caminhonete parou. Desembarcamos e nos apresentamos. Eles disseram que eram peões de uma fazenda próxima, que os patrões estavam fora, e depois de alguns minutos de conversa nos convidaram para passar a noite lá. No dia seguinte nos trariam de volta para seguirmos viagem.

       A casa da fazenda era grande e bem cuidada, e ao entrarmos sentimos um delicioso cheirinho de comida caseira. Comemos, bebemos, fumamos, conversamos, rimos, eu cantei e fomos dormir felizes. No dia seguinte nos acordaram cedo. Tomamos um bom café e os rapazes cumpriram a promessa de nos deixar na estrada. Fumamos um último baseado e nos abraçamos como velhos amigos.

        Quem viaja precisa acreditar em magia...



Escrito por clovis heberle às 22h14
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CHUVA AMAZÔNICA

   

 

Litoral, cordilheira. Faltava conhecer o Equador amazônico. Estávamos a algumas horas de ônibus da floresta, e embarcamos. Não havia mais assentos vagos, mas o cobrador disse que poderíamos sobre a capota, junto com as malas. Só recomendou cuidado com alguns túneis. ''Se abaixem bem, para não bater a cabeça'', disse.

     A visão era total. Céu e montanhas, precipícios de arrepiar, a estrada sempre ladeando o rio que descia. À medida que descíamos, as árvores ficavam mais altas e a temperatura subia. A cada túnel nós nos deitávamos entre as malas, tudo ficava escuro, para em seguida clarear.

     Curva após curva, a paisagem mudou completamente. Agora as copas das árvores estavam na altura (ou acima) dos nossos olhos. Víamos flores, pássaros e até macacos pulando nos galhos, assustados com a passagem do ônibus. De repente, um avião surgiu ao nosso lado, perdeu altura e sumiu entre as árvores. Não demorou muito para sabermos que ele havia aterrissado numa pista em plena selva, construída por uma empresa de exploração de petróleo que tinha uma base operacional perto dalí.

     Foi nela a primeira parada do ônibus, e alí ficou claro por que ele estava lotado: um grupo de prostitutas desembarcou para passar o fim de semana no acampamento e alegrar as centenas de trabalhadores ansiosos por algumas horas de prazer depois de uma semana de trabalho duro. Conseguimos lugares para sentar, e em boa hora, pois começou a chover forte. Descemos no lugarejo seguinte,  abaixo de chuva. Durante toda a noite não parou de chover, e nem no dia seguinte. Nosso primeiro contato com a selva amazônica acabou sendo apenas ver e ouvir a chuva forte batendo sem parar nos telhados dos prédios de madeira. 



Escrito por clovis heberle às 00h16
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TAN CERCA DEL TUNGURAHUA

OS MEXICANOS COSTUMAM EXCLAMAR: "POBRE MEXICO, TAN LEJOS DE DIOS Y TAN CERCA DE ESTADOS UNIDOS!" OS

MORADORES DE BAÑOS PODERIAM DIZER O MESMO DE SUA RELAÇÃO COM O VULCÃO TUNGURAHUA, 5.020 METROS,

QUE AO LONGO DA HISTÓRIA TEM COBERTO A REGIÃO COM CINZA, LAVA E ENXOFRE. DESDE O SÉCULO 17 HÁ REGISTROS

DETALHADO DE ERUPÇÕES, COM A FUGA DA POPULAÇÃO PARA ÁREAS MAIS SEGURAS.



Escrito por clovis heberle às 22h10
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BAÑOS

 


      Nossos amigos americanos eram fascinados por Baños, cidadezinha junto ao vulcão Tunguruahua, a meio caminho entre os Andes e a floresta amazônica. De seu solo brotam fontes de água de até 55 graus de calor, e o lugar vive em função das suas inúmeras piscinas, públicas e de pousadas e hotéis, afora o clima agradável (sempre em torno dos 22 graus) e a beleza das montanhas e vales, cortados por trilhas para caminhadas e cavalgadas. Pedro, Dedeco e eu juntamos alguns sucres (a moeda local) para passar uns dias na região. Fomos de carona até Quito, e de lá seguimos de ônibus. Chegamos depois mil metros de descida, numa estradinha cheias de curvas.  

      O lugarejo realmente é belíssimo, mas a primeira imagem que tive foi um tanto chocante, mesmo para quem já estava acostumado a provar todo tipo de pratos típicos: ratões inteiros, assados em grelhas instaladas nas calçadas. Mesmo sem pele e órgãos internos, a visão daqueles bichos de perninhas abertas sobre as brasas me revoltou o estômago...

Quando desfizemos as mochilas, no quarto do hotel, nos demos conta de que não tínhamos calções de banho. Mesmo assim fomos conhecer as piscinas de águas termais, administradas pela prefeitura. Explicamos o caso para a funcionária que nos atendeu, e ela imediatamente resolveu o nosso problema: por alguns centavos além da entrada, nos alugou calções – o meu era verde, enorme, mas isto era o que menos importava.

Naquele dia, e nos seguintes, nos deleitamos com intermináveis banhos de águas mornas, quentes, quentíssimas e frias, em piscinas coletivas. Aprendemos a gozar a sensação estimulante de alternar mergulhos na água bem quente e para depois ficar por alguns minutos debaixo de uma cascata de água gelada puríssima que descia num riacho formado pelo degelo do topo do vulcão.



Escrito por clovis heberle às 09h05
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UMA CRATERA, UM LAGO E DUAS ILHAS

Situada junto ao vulcão Cotacachi (ao fundo, na foto à direita) Cuicocha é uma reserva ecológica. A cratera vulcânica tem 4 Km

de largura por 3 Km de comprimento. Do lago, cujas águas chegam a 200 m de profundidade, emergem duas ilhotas de rocha vulcânica

cobertas de vegetação nativa. Ficamos na menor delas, nos dias 11 e 12 de maio de 1972 - há 35 anos.

 



Escrito por clovis heberle às 16h25
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VIAGEM NO MEIO DO VULCÃO, NO MEIO DO MUNDO

 


 

        Redwood entrou em casa esbaforido.

        ''Vamos passar dois dias isolados numa ilha de um lago dentro da cratera de um vulcão. Uns amigos americanos alugaram a ilha e nos convidaram para ir com eles. Já providenciaram em tudo. Só precisamos levar os cobertores pra passar a noite.''

Em meia hora estávamos num ônibus rumo ao lago Cuicocha, do outro lado do vale, a 14 quilômetros de distância. O zelador da área pertencente ao governo nos esperava na margem e nos levou em sua barca até uma das duas pequenas ilhas desabitadas. Ficou combinado que ele voltaria para nos buscar no fim da tarde do dia seguinte. Caminhamos até uma das três casas construídas para turistas, e nos instalamos.

Realmente os três americanos, em viagem pelo continente, haviam providenciado em tudo – dos sanduíches aos comprimidos para purificar a água. Fizemos um lanche e depois de fumarmos inúmeros baseados saímos para conhecer a ilha. A maior parte dela tem vegetação baixa, com uma parte de mata fechada. Colhemos flores silvestres, recolhemos lenha e voltamos para apreciar o final da tarde. Sentados na frente da casa, curtimos o efeito da luz do sol sobre as paredes de pedra multifacetada do vulcão e na água translúcida do lago, que mudava de cor de acordo com a passagem dos raios solares.

Quando escureceu, entramos em casa acendemos a lareira para nos aquecer – fazia frio e chovia. A casa se encheu de fumaça, que se recusava a sair pela chaminé e fazia nossos olhos arderem. Ficamos conversando e vendo o tarô, à luz de velas. As cartas indicaram para mim uma grande aventura, com muita sorte e felicidade.

No dia seguinte levantamos cedo, e em vez de café da manhã tomamos ácidos – três doses e meia para cada um. Fiquei um pouco assustado – nunca tinha tomado mais de uma dose. Um a um fomos saindo, e quando me dei conta estava sozinho, no meio do campo, junto do lago. Sentei e me deixei envolver pelo silêncio e pela beleza do lugar. O sol tornava mais vivas as cores das flores, da mata, das encostas cultivadas e do pico nevado do Cotacachi. As paredes do vulcão me cercavam por todos os lados. Me senti como se estivesse dentro de um umbigo, um marco zero sobre a linha do Equador a partir do qual a terra se dividia em norte e sul, leste e oeste.

Levantei e comecei a caminhar lentamente, imerso numa profunda reflexão. Por alguns instantes, pude me ver meu corpo, como se eu fosse outra pessoa. Meu espírito pairou a alguns metros de mim, para em seguida se reincoporar. Comecei a andar mais rapidamente, e ao chegar à casa onde estavam os outros contei o que havia me acontecido. Me explicaram que eu havia tido uma alucinação, comum a quem toma LSD, mescalina e outros alucinógenos, ou a quem é profundamente espiritualizado, como os monges de algumas religiões orientais.

O tarô estava certo. Foi mesmo uma grande aventura.





Escrito por clovis heberle às 16h15
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FREAKS

TREZE ANOS ANTES DAS TIRAS DOS FREAK BROTHERS SEREM LANÇADOS NO BRASIL PELA LPM, A

GENTE CURTIA AS HISTÓRIAS DOS DOIDÕES DE GILBERT SHELTON, TRAZIDAS NAS MOCHILAS DA

RAPAZIADA AMERICANA NAS VIAGENS PELA AMÉRICA DO SUL.

 



Escrito por clovis heberle às 23h54
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OTAVALO

A CIDADE COM O ONIPRESENTE VULCÃO IMBABURA AO FUNDO



Escrito por clovis heberle às 22h20
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A PLACE TO HIDE

 

Os moradores da casa têm uma coisa em comum: estavam em busca de um lugar lindo e tranqüilo para passar uns dias, semanas, meses ou a vida toda. E encontraram este refúgio em Otavalo, Equador, entre os vulcões Imbabura e Cotacachi. Com exceção de Phil, que estava dando um tempo depois de trazer algumas centenas de doses de LSD da Holanda para os Estados Unidos, os outros americanos deixaram o seu país para escapar da convocação para a guerra do Vietnã.

Todos tinham experiência de vida em comunidade. Compartilhavam o que tinham com naturalidade e as tarefas domésticas – limpar a casa, cozinhar, fazer compras – eram feitas sem atritos. Deixaram para trás suas faculdades e carreiras profissionais para viver modestamente, no limite da sobrevivência, com a ajuda dos pais e de amigos. Críticos do consumismo, da violência e do individualismo exacerbado da sociedade norte-americana, encontraram nesse pequeno país sul-americano um modo de vida parecido com o que gostariam de ter na sua pátria. Desfrutavam do que mais prezavam: liberdade, respeito, hospitalidade. Pequenos gestos, como o da dona da casa, uma senhora que morava no andar térreo, e às vezes nos surpreendia com um prato de pipoca quentinha, deixava-os emocionados. ''Isto nunca aconteceria lá'', comentavam, ''até porque volta e meia atrasamos o pagamento do aluguel.''

Conversávamos sobre tudo – a vida na Califórnia e no Brasil, os benefícios e os perigos de comer carne, as religiões, a política, a astrologia, música, viagens, sonhos. Nossa curiosidade insaciável abria portas para todos os temas. Cada um argumentava, explicava seus pontos de vista, respondia aos questionamentos com serenidade, sem gritaria ou bate-boca. Os visitantes contribuíam com suas experiências de vida, contavam coisas de seus países, e viajávamos, entre uma baforada e outra, pela Austrália, a Suécia, a França e várias regiões dos Estados Unidos. Traziam instrumentos musicais, aparelhos de som portáteis com fitas cassette. Eu cantava música brasileira, nós cantávamos juntos Beatles, Stones, The Mamas and the Papas, James Taylor, Carol King. Ouvíamos Pink Floyd, Jimmi Hendrix, The Band. Cada noite era uma celebração.

Na casa havia uma regra básica, não dita, mas cumprida, de nunca ceder ao baixo astral. Até no uso de drogas não se admitia barra pesada: um brasileiro de São Paulo apareceu numa tarde e depois de alguns minutos de conversa pegou uma seringa e uma ampola para injetar. Redwood, do alto de seus dois metros, disse para o rapaz fazer isso num canto da sala, e depois se retirar.

Quando hospedávamos casais, sempre cedíamos a eles um quarto, para terem privacidade.

Para quem vinha de um país submetido a uma ditadura militar, em que tudo era proibido, tudo era reprimido, conviver com pessoas desse nível foi como sair da escuridão para a luz. Um banho de civilização.





Escrito por clovis heberle às 22h12
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DEAR DIARY

 

ARTESANATO NO MERCADO DE OTAVALO

Acabo de voltar de minha caminhada matinal. Desde o tempo do ônibus me acostumei sair bem cedo, antes dos outros acordarem, para colocar as idéias em ordem e conhecer melhor os lugares por onde ando. Na casa de Redwood, onde estamos morando há duas semanas, todos os dias começam do mesmo jeito: uma xícara de café com pão (quando há) e, em seguida, um baseado ( ou mais, dependendo do número de hóspedes). Depois alguém varre a casa, enquanto outro lava a louça.

No meio da manhã, saímos para cantar, geralmente no mercado. Às vezes vamos até Ibarra, uma cidade próxima, onde também há um mercado movimentado. Foi lá que, ontem, aconteceu uma coisa engraçada: eu caminhava cantando ''Jesus Cristo, yo estoy aqui'', pelos corredores entre as bancas ao ar livre, quando, numa curva, olhei para trás e vi uma procissão. Os nativos devem ter achado que aquele cara loiro, cabeludo, que cantava em homenagem a Cristo, era uma espécie de profeta. E me seguiam, em silêncio. Parei de cantar e agradeci. Nunca recolhemos tantas moedas, notas, pedaços de queijo, pacotes de amendoim, doces e outros donativos.




Escrito por clovis heberle às 22h02
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MÃE COTACACHI

IMAGINE ABRIR A JANELA, DE MANHÃ, E VER O SOL BATENDO NA ENCOSTA

DESTA MONTANHA DE 4.939 METROS, CHAMADA DE MÃE COTACACHI PELOS OTAVALOS.  



Escrito por clovis heberle às 23h48
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PAI IMBABURA

O VULCÃO IMBABURA, DE 4.560 METROS, É CHAMADO PELOS INDÍGENAS DE TAYTA (PAI) IMBABURA.

CONSIDERADO UM MONTE SAGRADO,  EM SUA CRATERA SÃO REALIZADOS RITUAIS DESDE ANTES

DA DOMINAÇÃO ESPANHOLA. O PICO FREQUENTEMENTE SE COBRE DE NEVE.



Escrito por clovis heberle às 23h20
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CIDADÃOS DO MUNDO

 


De um lado do vale onde se localiza a cidade de Otavalo, a 100 quilômetros ao norte de Quito, está o vulcão Cotacachi, com seu pico em forma de cunha quase sempre coberto de neve. Do outro, o Imbabura, em cujo cume redondo os pagés da tribo costumam fazer seus rituais, desde muitos antes dos incas e depois os espanhóis terem tentado – sem sucesso – dominá-los. Talvez esteja nesses diálogos com os deuses a explicação para esta tribo ter preservado, século após século, a sua identidade étnica e cultural.

Excelentes artesãos, músicos e comerciantes, os otavalos aprimoram, há mais de 400 anos, as técnicas de tratamento, tingimento e tecelagem da lã e outros tecidos. Um bom poncho de lã tingido e tecido pelos otavalos atravessa gerações sem desbotar ou esgarçar. Graças à produção e venda de roupas, tecidos e objetos belos e originais feitos à mão, em teares e mais recentemente com máquinas industriais, a pequena Otavalo se transformou num centro turístico internacional. O mercado dos ponchos está em todos os roteiros para visitantes do país.

É fácil identificar um índio otavalo – ou otavalenho - típico. Os homens nunca cortam os cabelos, e puxam para trás numa única trança. Usam calças de algodão cru que vão até o meio das canelas e quando está frio não tiram os seus ponchos azuis. As mulheres usam colares, brincos e braceletes vistosos, roupas coloridas e chamam a atenção pela beleza de seus rostos de pele morena e forma esguia.

O otavalos não ficam apenas em sua cidade esperando pelos turistas ávidos por uma lembrança. Viajantes incansáveis, podem ser encontrados na praça General Osório, no Rio, ou da praça da República, em São Paulo. Estão também em Madri, Paris, Tóquio ou qualquer outra grande cidade do mundo onde haja feiras de artesanato. São cidadãos do mundo.





Escrito por clovis heberle às 22h55
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