NERVOUS BREAKDOWN
Alguns dias antes de voltar vendi meu saco de dormir, companheiro de 210 noites, numa loja de artigos de caça e pesca de Otavalo. Sleeping bags eram raros e caros no Equador, e o dono da loja pretendia usá-lo em suas pescarias – depois de uma boa lavada.
Foi com parte dos sucres obtidos dessa venda, transformados em dólares no aeroporto de Quito e em cruzeiros no do Galeão, que fui de ônibus até a estação rodoviária Novo Rio. No meio do burburinho de milhares de viajantes, os alto-falantes tocavam "debaixo dos caracóis dos teus cabelos/ uma história pra contar/ de um mundo tão distante". Foi a primeira vez que ouvia a música, sucesso da época. Composta por Roberto Carlos para Caetano Veloso, a letra falava da volta dele do exílio, e se encaixava na minha condição de recém-chegado ao meu país - com muitas histórias para contar.
Depois de fazer um lanche, comprei uma passagem até a cidade mais distante que as minhas minguadas economias permitiam: Nova Iguaçu, na Via Dutra. Eu queria pegar a estrada, mesmo já sendo noite.
Desci num posto de gasolina, na esperança de encontrar alguém que estivesse indo para o sul. Não custei a me dar conta de que alí, na baixada fluminense, ninguém daria carona a um desconhecido, ainda mais à noite. Decidi achar algum lugar onde pudesse pernoitar. Caminhei em direção ao centro da cidade, cada vez mais amedrontado e arrependido de ter saído do Rio. Na rodoviária daria para ficar num banco, com alguma segurança, até amanhecer. Naquela cidade da baixada, com a minha pinta de gringo, eu era um alvo tentador para qualquer vagabundo que tivesse um canivete.
Passei na frente de uma igreja com uma escola ao lado. Havia luz lá dentro. Bati e um padre abriu uma fresta da porta. Expliquei que era brasileiro recém chegado de uma longa viagem pelo exterior, estava muito cansado e precisava de um lugar para dormir. Ele me deixou entrar e disse rispidamente que ali não era albergue.
“Preciso apenas de um lugar para descansar sem ser assaltado. Saio de manhã cedinho, antes das aulas começarem”, argumentei. Mas ele estava irredutível, já me empurrando para a porta. “ Não posso deixar um desconhecido ficar aqui, esta é uma cidade violenta, matam as pessoas por qualquer coisa. Procura outro lugar. Vai pra delegacia de polícia”.
Aí eu tive uma espécie de colapso nervoso. Comecei a chorar e, aos soluços, perguntei que cristão era ele, negando abrigo a uma pessoa que só precisava de um canto para passar a noite. Depois do meu desabafo, ele mudou de atitude. Fechou a porta, me levou até uma sala de aula e só me pediu para sair logo que amanhecesse para que ninguém me visse.
Fiz a cama no chão com as poucas peças de roupa que trazia e me cobri com um cobertor que havia ganho de um americano, de um tecido usado pelos astronautas. Feito de uma espécie de plástico aluminizado, retinha o calor do corpo. Exausto, dormi até clarear o dia.
Cumpri a minha promessa. Ninguém me viu sair.
Escrito por clovis heberle às 00h16
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SACOLEIRAS DE LUXO
Apesar de ser muito cedo – nem seis horas da manhã – a pequena sala de embarque lotou logo que o nosso vôo foi chamado. Duas coisas me chamaram a atenção nos passageiros embarcados na capital do Amazonas: quase todos eram mulheres, e levavam muitas caixas e sacolas com aparelhos eletrodomésticos.
Fui dos primeiros a entrar o avião. Me acomodei num banco da frente e assisti, entre divertido e espantado, a invasão de uma horda de senhoras e senhoritas, disputando espaço nos bagageiros e corredores para colocar a tralha, de tevês a ventiladores. Não demorei a conseguir a explicação: eram esposas, filhas e parentes de militares que iam até Manaus para comprar aparelhos na Zona Franca. Como as importações eram fortemente taxadas, quando não proibidas, elas conseguiam um bom dinheiro revendendo os badulaques, pois viajavam de graça nos aviões do CAN, sempre lotados no trecho Manaus-Brasilia-Rio.
O velho DC6 agüentou bem a longa viagem até Brasília, mas logo depois de parar no terminal da aeronáutica fomos avisados de que haveria uma parada por causa de problemas técnicos. Cansado e faminto (não havia serviço de bordo, lembram?), esperei três horas até a chamada para o reinício do vôo. Um dos pilotos disse que o motor consertado em Quito havia sido trocado. Não pifou na viagem por um milagre.
Nova decolagem, e no fim da tarde pousávamos no Rio.
Foi um vôo para me vacinar, definitivamente, contra o medo de viajar de avião.
Escrito por clovis heberle às 21h59
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SEIS HORAS SOBRE A AMAZÔNIA
De Guayaquil a Manaus foram seis horas de viagem. Durante cinco dessas longas horas a paisagem que eu via da janela era esta - floresta, floresta, floresta, e rios, abrindo caminho como serpentes. No entardecer eles se tingiram de dourado, contrastando com o verde cada vez mais escuro da mata. Um espetáculo inesquecível. Anoiteceu, e fiquei preocupado. E se o avião caísse na mata? (logo depois da decolagem eu havia notado que saía líquido da parte de cima de um dos motores - o que ficava do meu lado. Felizmente nada aconteceu. Pousamos em Manaus com noite fechada. Cochilei num banco do aeroporto até o amanhecer.
Escrito por clovis heberle às 23h49
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UM VELHO DE GUERRA ENFRENTA AS MONTANHAS
Uma semana depois, lá estava eu novamente no aeroporto, esperando o meu avião. Quando ele se aproximou e lentamente estacionou na frente da sala de embarque, senti um calafrio. Além de ser um modelo já fora de uso há muitos anos pelas empresas comerciais, estava com parte da fuselagem e das asas sujas de fuligem e óleo. A imagem era de dar medo.
O DC6, quadrimotor a hélice com capacidade para 70 passageiros e velocidade máxima de pouco mais de 500 km/h, foi projetado pela norteamericana Douglas no final da década de 40 e brilhou na Guerra da Coréia, repetindo o sucesso de seu irmão mais velho, o bimotor DC3, na Segunda Guerra Mundial. Nos anos 60 já havia sido substituído pelos jatos DC8.
Sentei numa poltrona vaga na janela, junto da asa. De lá, vi a fumaceira que saiu dos motores ao serem ligados. O barulho era muito forte, mas deu para ouvir o piloto dizer pelo alto-falante que nosso vôo para o Rio teria escalas em Guayaquil, no Equador, em Manaus, onde pernoitaríamos, e em Brasilia. Dois dias de viagem. E não haveria serviço de bordo.
Uma barata passeava tranqüila pelo teto quando taxiávamos em direção à cabeceira da pista. No percurso, percebi que o aeroporto estava cercado de montanhas. Rezei para que os motores não falhassem na decolagem. E não falharam. Exigidos ao máximo, faziam toda a cabine vibrar. Conseguiram tirar o aparelho do solo pouco antes do final da pista. Mas aí surgiram as montanhas. Em vez de ganhar altura num ângulo próximo a 40 graus, como os jatos, o nosso DC6 subia lentamente, aos trancos. Olhei em volta, e os cerca de 20 passageiros (quase todos vinham de escalas anteriores) pareciam tão apavorados como eu. Até que passamos por cima de um cume, e o avião estabilizou. O ruído e os tremores diminuíram bastante. O resto da viagem até Guayaquil foi tranqüila, e decolamos sem sobressaltos ( a cidade fica ao nivel do mar) rumo a Manaus.
Escrito por clovis heberle às 22h06
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VIDA, DURA VIDA
No dia marcado para o embarque, lá estava eu no aeroporto de Quito, com minha mochila e o violão. No guichê do CAN me deram uma ficha de papelão onde constavam os dados básicos - nome, destino, dia e horário da partida. Ansioso, fiquei colado ao vidro da sala de embarque, vendo a chegada e saída de aviões. Só que o meu não apareceu. Depois de uma hora, um funcionário informou que o vôo havia sido cancelado por problemas técnicos com a aeronave. A embaixada informaria qual a nova data do vôo.
Resignado, voltei para Otavalo.
A decisão de voltar foi tomada por mim sem discussões, numa das minhas caminhadas matinais. Eu me sentia cansado daquela vida de cantar, ganhar moedas, comer, dormir, cantar de novo, ganhar moedas, cantar, cantar. A minha fome já não era mais saciada depois de uma refeição. Endêmica, me acompanhava ao longo dos dias. Já não havia mais sentido em continuar. Por mais que fumasse, não conseguia mais delirar com lances mágicos que me levassem à Califórnia, à Europa, a cruzeiros em navios pelo mundo. A real era que estava na hora de recomeçar. A faculdade, a carreira de jornalista, a vida. A dura vida no Brasil da ditadura militar.
Escrito por clovis heberle às 23h33
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DC6-B

O DC6-B, QUADRIMOTOR DA DÉCADA DE 1950, AINDA ERA USADO PELO CORREIO AÉREO NACIONAL
NO INÍCIO DOS ANOS 70. NA ÉPOCA, AS EMPRESAS AÉREAS JÁ OPERAVAM COM AVIÕES A JATO, POIS
AERONAVES A HÉLICE ERAM ANTIECONÔMICAS, LENTAS E INSEGURAS.
Escrito por clovis heberle às 20h57
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NAS ASAS DO CAN
“Sou brasileiro e não tenho condições de comprar uma passagem para voltar para o meu país. Quero ser repatriado.”
Não foi preciso argumentar, nem pedir ou implorar – eu estava preparado inclusive para aceitar a pena da perda do direito a um passaporte, imposta aos repatriados. O secretário da embaixada brasileira em Quito, um senhor alto e magro, óculos de lentes grossas, me interrompeu e explicou, com a calma dos diplomatas entediados, que a solução para o meu caso era bem mais simples. Dali a duas semanas chegaria à capital equatoriana um avião do Correio Aéreo Nacional (CAN) , da Força Aérea Brasileira, que todos os meses pousava nas capitais dos países dos três continentes para transportar as malas postais oficiais até Brasília e o Rio de Janeiro. O avião tinha poltronas, e ele não só poderia me conseguir um lugar como me dar uma ajuda em dinheiro para me manter até o embarque. Preencheu o formulário de embarque e um recibo de 1.200 sucres, que eu assinei. Me deu três notas de 100. Caramba, que cara de sorte: uma viagem de graça até o Rio, mais uma graninha para gastar. Desci as escadas me sentindo como se tivesse ganho na loteria.
Voltei para casa, em Otavalo, de ônibus - me dei ao luxo de regatear um desconto no preço da passagem com o motorista/cobrador/dono do veículo. Cheguei com pacotes de comida e bebida,e fizemos uma festa com o dinheiro da embaixada. Um brinde ao senhor secretário, que embolsou 900 sucres à minha custa!
Escrito por clovis heberle às 20h35
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BYE, BYE, REDWOOD
Despedidas eram normais, assim como encontros e reencontros. Todos os dias alguém chegava, partia, voltava. Era a rotina da casa. A despedida de Redwood, no entanto, foi sofrida, longa, e dupla.
Sem receber dinheiro de casa, as velhas (e únicas) botas se desmanchando, o grandão decidiu estar na hora de reiniciar a sua vida na Califórnia. Comprou a passagem para dali a uma semana, e nos dias que restavam no seu amado Equador passava boa parte do dia parado na frente da janela da sala, os olhos esquadrinhando a paisagem do vale de tantos tons de verde. Falava muito, também. Queria nos convencer a visitá-lo na comunidade onde voltaria a viver, perto de San Francisco. Descrevia a cidade, a geografia da região, as florestas de abetos e pinheiros que cobriam as montanhas até a costa recortada por baías. “Aquilo é lindo demais, vocês têm que conhecer. Pena que fica nos Estados Unidos”.
Na partida, longos abraços, boas vibrações, o último baseado. A vizinha do andar debaixo e dona da casa trouxe um prato de pipoca. Redwood era um cara legal, sentiríamos a sua falta. No final da tarde, surpresa: lá estava ele, subindo a escada. Aos gritos, justificou: não conseguiu embarcar no avião. Ainda estava incerto entre ficar ou partir.
Mais alguns dias de crise, horas e horas parado na frente da janela, baforadas e mais baforadas de maconha colombiana e ele finalmente criou forças para uma nova despedida.
Bye, bye, Redwood.
Adiós, Maderaroja.
Escrito por clovis heberle às 23h03
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MARCAS DA FOME

Encontrei um brasileiro numa avenida de Quito. Paulista, mochila surrada por muitas andanças, rosto vincado apesar da pouca idade (não mais de 25 anos), Ricardo sabia tudo de estrada. Já tinha subido até o México, voltado a São Paulo e agora retornava para o norte, sem rumo definido. Viajava sozinho há dois anos, com uma pequena ajuda dos pais quando as coisas ficavam muito difíceis.
Estávamos na frente de uma banca de frutas e ele pediu, implorou, encheu o saco da vendedora até ganhar uma banana, devorada em segundos. Ricardo dormia ao relento, embaixo de marquises. Pedia dinheiro, pão velho, restos de comida. Catava baganas, se drogava ou bebia quando alguém oferecia qualquer coisa. Adorava esta vida de vagabundo, de cidade em cidade, de país em país. Ao me despedir dei a ele uma carteira de cigarros quase cheia - Full Speed, tabaco negro, o meu predileto. Parado na calçada, acompanhei aquele andar sem pressa até a figura sumir numa esquina, não sem antes me dar um aceno, sorrindo feliz pela “presença” que havia ganho. Cigarros inteiros, dois dias sem precisar juntar baganas.
Aquela imagem ficou gravada na minha mente. Em casa, ao voltar, me olhei no espelho. Aquele já não era o rosto jovem, limpo, olhar inocente, do dia em que tirei a foto para o passaporte, há seis meses. O que vi foi um rosto magro, cansado, já denunciando tantas noites de sono em jejum ("o sono alimenta", dizíamos, como consolo). O rosto de Ricardo, o andarilho paulista.
Pela primeira vez pensei em voltar.
Escrito por clovis heberle às 00h57
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JAM SESSIONS
Na nossa casa de Otavalo eram comuns as jam sessions. Chegava um com uma gaita de boca, outro com um violão, outro pegava qualquer coisa para batucar o ritmo e estava feito. A Bossa Nova dominava. Americanos e europeus eram fascinados por Tom Jobim, Vinícius, Baden, Bonfá, João Gilberto, os mestres. Assim como nas ruas Roberto Carlos, com Jesus Cristo e até O Calhambeque deliciavam o povão, em casa a mais pedida era Garota de Ipanema. Eu havia até preparado uma versão bilingüe. Cantava metade em português e metade em inglês, na versão autorizada por Tom ("Tall and tanned, young and lovely, the girl from Ipanema goes walking, and when she passes, each one she passes goes uauuuuu...”).
Os gringos não tiravam os olhos dos acordes dedilhados no violão. Da Bossa Nova eu partia para os sambas de Noel, e continuava com Caetano, Gil (“Eu não sou daqui, eu não tenho amor, eu sou da Bahia, de São Salvador/ If you hold a stone, hold it in your head”), e depois Beatles, Bob Dylan, The Mamas and The Papas, James Taylor e Carole King. A estas alturas, todos cantavam, acompanhavam com batidas na mesa, com o que estivesse à mão.
Às vezes alguém queria saber como era candomblé, batuque, umbanda e eu fazia uma demonstração. A lata de lixo virava atabaque ( a minha tumbadora já havia sido vendida, num dos tantos apertos do caminho) e eu cantava o único ponto de umbanda que me lembrava, dos tempos do carioca Régis: “Pai Joaquim, ôô, pai Joaquim, êá, pai Joaquim é rei de Angola, pai Joaquim é de Angolangolá”. Só faltava um californiano ou novaiorquino entrar em transe e incorporar um preto véio. Seria bastante complicado de resolver. Nenhum de nós jamais havia pisado num terreiro...
O auge da minha "carreira artística" ocorreu quando um empresário equatoriano, dono de uma fábrica de sabão em Quito de passagem pela cidade, me viu cantar no mercado e pediu para ir até nossa casa para ouvir mais. Contou que tinha vários discos de música brasileira, e passou a tarde conosco, fumando, bebendo e curtindo samba e bossa nova. Ao sair, me convidou para gravar um comercial para divulgar a marca do seu sabão nas rádios de todo o país.
Não dei bola – o cara poderia ter se entusiasmado e, passada a bebedeira, esquecido de tudo. Mas no dia seguinte ele chegou de carro para irmos, conforme o combinado, para a vizinha Ibarra, onde havia alugado o estúdio da rádio local para a gravação. Música e letra saíram de improviso, com o apoio moral do Pedro e do Dedeco e depois de um, dois, sei lá quantos baseados. O refrão, em ritmo e melodia de bossa nova:
''JABÓN STOP/ LAVA MEJOR SU ROO-PA,
JABON STOP/ LAVA MEJOR SU ROOOO-PA”.
Não sei se o comercial foi um sucesso nas rádios, mas me senti um pop star ao embolsar a incrível quantia de US$ 300,00. Uma fortuna.
Escrito por clovis heberle às 23h38
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DE CARONA NA HISTÓRIA
Entre os vários tipos de caronas, as melhores – e mais raras – são aquelas em que o motorista é bem educado, culto e comunicativo. Se o carro for confortável, melhor ainda. Foi uma carona dessas que pegamos em Bogotá, na volta para o Equador, com o agrônomo de uma fazenda. No percurso de três horas, tive uma aula sobre a história, a economia e a realidade colombiana.
Com ele e dezenas de outros motoristas aprendi que na raiz das violência e das desigualdades sociais da Colômbia - e, em proporções semelhantes, dos demais países andinos e da Venezuela – está a tremenda concentração do poder econômico e político nas mãos de poucas famílias. A concentração começou na própria colonização da região pelos espanhóis, no século XVI. Ao contrário do que aconteceu no Brasil, onde os portugueses se estabeleceram na costa e aos poucos foram conquistando o interior com o estabelecimento de fazendas, os espanhóis fundaram suas cidades com método e disciplina, baseados em decretos reais que definiam critérios até para a largura das ruas.
Apoiados por tropas e padres católicos, representantes dos reis de Espanha escolhiam os lugares mais aprazíveis – junto a cursos d'água, em áreas planas e arejadas, de fácil defesa – para fundar as vilas que serviriam de bases para a ocupção. Todas elas começam com a Plaza Mayor, um quadrilátero de onde saem as avenidas principais e as ruas transversais, formando quadras iguais. Na praça, centro de lazer e comemorações públicas, ficam a administração pública e a igreja. Em todos os territórios, seja das Américas ou das Filipinas, o procedimento era sempre o mesmo.
Aqueles espanhóis que tinham coragem de abandonar seu país para enfrentar os perigos de uma América povoada por tribos indígenas geralmente hostis ganhavam as melhores terras para produzir, com a proteção do império. Os privilégios concedidos a estes primeiros desbravadores foram transmitidos para as gerações seguintes. Os índios foram empurrados para as montanhas ou para a selva, e tiveram que se conformar com as atividades agrícolas e artesanais. Na Bolívia foram escravizados e morreram aos milhões nas minas de ouro, prata, cobre e estanho. Comércio, indústria, instituições financeiras, agricultura mecanizada e pecuária extensiva ficaram com as famílias dos colonizadores.
Todas as tentativas de mudança desta estrutura foram reprimidas com violência. Violentas também têm sido as lutas pelo poder político entre grupos rivais ao longo do século 20, numa sucessão de golpes e contragolpes mais ou menos sangrentos que só amainou na década de 1960. Enquanto isso, os remanescentes dos incas e demais tribos – mais de 70 por cento da população na Bolívia, no Peru e no Equador - conseguiram manter incólumes a sua língua, os costumes e as tradições. A consolidação da democracia tem permitido aos índios aumentar a participação na política e na economia de seus países. As mudanças no território onde o império inca foi conquistado a ferro e fogo pelos espanhóis passam pela retomada do poder pelos descendentes de Atahualpa, o último imperador.
Escrito por clovis heberle às 22h50
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WITH A LITTLE HELP FROM MY FRIENDS
Apavorado com as dificuldades de sobreviver na Colômbia, eu havia mandado de Pasto para Porto Alegre uma carta para a Laís, minha namorada, relatando a nossa situação. Como artista de rua eu não conseguia dinheiro suficiente nem para a alimentação. Chegamos a ficar dois dias sem comer. Ela e eu nos correspondíamos desde o início da viagem. Eu informava qual seria a próxima cidade em que ficaria e ela mandava cartas para o Posta Restante - a seção dos correios para as pessoas sem endereço fixo apanharem a correspondência.
Três dias depois de chegar a Bogotá, havia uma carta dela dizendo que os amigos e os colegas da faculdade de Jornalismo estavam recolhendo dinheiro para nos ajudar a seguir em frente – através da Laís, a turma acompanhava e vibrava com as nossas andanças. O Dodo, já cursando medicina, ajudou na mobilização, assim como a Liana e os outros companheiros da primeira fase da viagem que haviam voltado. O Silmar ajudou a fazer a operação bancária para que eu pudesse fazer o saque em pesos colombianos. Graças à moçada, pela primeira vez desde que saíra do Brasil eu tinha $$$ na mão. Seria um prenúncio da era de Aquário, regida pela paz, a harmonia, a solidariedade? Aquarianos, o Pedro e eu achamos que sim. E nos lembramos das palavras da Piper, ao ler as cartas do tarô antes de partirmos: “vocês vão receber uma ajuda inesperada e se sentirão muito felizes com isso”.
A música With a Little Help from my Friends, dos Beatles, magistralmente interpretada por Joe Cooker no Festival de Woodstock, ressoava nos meus ouvidos naquele final de manhã ensolarado e frio. Convidamos nossas amigas colombianas para almoçar e brindamos à grana que pintou, sem revelar os nossos planos. Fomos até a casa de Laura, pegamos as mochilas e voltamos para a estrada, sem despedidas nem explicações, apesar do sentimento de culpa, pois as gurias realmente foram muito legais conosco.
As últimas duas semanas foram tão duras que, em vez de seguir para o norte, como havíamos planejado, preferimos ouvir a advertência do I Ching: "Não é hora de atravessar o grande caudal". Era hora, isto sim, de voltar para casa, em Otavalo. Lá, na linha do Equador, entre o pai Imbabura e a mãe Cotacachi, eu teria paz de espírito para decidir quais as próximas aventuras.
Escrito por clovis heberle às 21h02
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CASA, COMIDA E ROUPA LAVADA
A lancheria era limpinha, e aproveitei para ir ao banheiro. Quando voltei, o Pedro conversava com uma menina castanha clara, meio baixinha e gordinha, que com alguma boa vontade poderia ser considerada ''bonitinha''. Eles tomavam cafezinho e pareciam velhos amigos. Ela se chamava Laura, e estava deslumbrada por conhecer dois hippies legitimos. Estudante de letras, sonhava pegar a estrada e conhecer o mundo como a gente, de pueblo em pueblo, de carona. Papo vai, papo vem, contamos que estávamos sem grana, que nesta selva de pedra as pessoas eram completamente indiferentes a um artista de rua, que pretendíamos seguir viagem para os Estados Unidos.
Laura nos convidou para ficar em sua casa enquanto estivéssemos em Bogotá. Tinha um quarto vago, e comida não era problema. Ela parecia meio louquinha, mas casa e comida era tudo que queríamos no momento, até arranjar um jeito de sair da cidade e do país. Fomos de ônibus até o bairro de classe média onde ela morava com a mãe e um irmão. De um dia para outro, nosso status mudou. Conhecemos a cidade com Laura, e fizemos turismo. Fomos a uma tourada (do tipo português, em que o touro não é morto), ao planetário, ao cerro de Montserrat, de onde se vê quase toda cidade, e conhecemos a Catedral de Sal, uma antiga mina de sal nos arredores da cidade transformada em templo religioso. Meio (ou muito) a contragosto, Pedro fez o papel de namorado da nossa anfitriã.
Além de turismo, também acompanhávamos Laura em algumas de suas atividades diárias. Numa delas – uma aula de inglês no Instituto Cultural Colombiano-Norteamericano, ela nos apresentou Adela, uma amiga. Alta, falsa magra, morena clara de olhos verdes, cabelos lisos compridos, a amiga era realmente linda. Ali mesmo, no bar do Cultural (onde os alunos falavam inglês), começamos a namorar. Foi uma estranha atração mútua. Já saímos dali abraçados e não nos desgrudamos mais, enquanto estivemos em Bogotá.
Escrito por clovis heberle às 00h12
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BOGOTÁ, MODERNA E VIOLENTA
Guzmán, o empresário que nos deu carona até Bogotá advertiu: ''cuidado, muito cuidado, pois a cidade tem muitos ladrões e assaltantes. Desconfiem de todos, não deixem relógios ou jóias à mostra, não se afastem das sucas coisas.'' Ele nos deixou numa praça e saimos a caminhar pelo centro, admirando os edifícios moderníssimos, as pessoas bem vestidas. Uma metrópole. Algumas quadras depois, um rapaz passou a andar ao nosso lado, puxando papo do tipo ''de onde vocês são, o que vieram fazer aqui? '' e outras obviedades. Dali a pouco, se ofereceu, gentilmente, para carregar o meu violão. Me lembrei do toque de Guzmán e agradeci. Ele sumiu.
Estranhamos o luxo, as avenidas largas, mas também a quantidade de policiais e soldados nas ruas. Os bancos, supermercados e joalherias tinham pelo menos dois soldados com armas pesadas junto às portas. Em cada esquina, policiais civis, armados com revólveres.
Andamos até encontrar um hotel confortável e barato, nos acomodamos e saímos para trabalhar, pois estávamos novamente duros. Cantei em praças, nas ruas, na entrada de um shopping em estilo americano, mas nada. Ninguém nos jogava nem uma moedinha. Aqueles cinco dias de Colômbia foram suficientes para constatarmos como o país era diferente do pequeno, pacato e generoso Equador, onde bastava cantar uma música ou duas e as notas e moedas pingavam na caixa do violão. Lá, eu cheguei a pegar uma carona sozinho, na estrada, de uma senhora de uns 60 anos. Aqui, carona só em postos de serviço ou da polícia rodoviaria.
Na manhã do dia seguinte, Pedro vendeu seu amado casaco de couro para pagar a diária do hotel. Fomos fazer um lanche com os trocados que sobraram, quando...
Escrito por clovis heberle às 20h29
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COLOMBIA
A Colômbia tem belas praias, nas costas do Pacífico e do mar das Caraíbas. Tem montanhas - a cordilheira dos Andes acaba em seu território - e uma enorme área de selva, nas fronteiras com o Brasil, a Venezuela e o Peru. Se limita ainda com o Equador e com o Panamá. É o segundo país mais populoso da América do Sul, com aproximadamente 45 milhões de habitantes, e o terceiro mais rico. Produz um café apreciadíssimo nos Estados Unidos e na Europa, e em sua pauta de exportações há rosas, frutas e produtos industriais. Ah, sim: exporta também maconha e cocaína, igualmente apreciadas nos mercados ilegais do primeiro mundo.
Escrito por clovis heberle às 00h47
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Salsa, cúmbia e gemidos na madrugada
“Cali, sucursal del cielo”. É assim que a cidade, situada às margens do rio Cauca, num belíssimo vale que corta a Colômbia no sentido norte-sul, se apresenta aos visitantes. Auto-estima é o que não falta aos moradores desta região de clima quente, onde o som da salsa, da cúmbia e outros ritmos caribenhos ressoa dia e noite, em todos os lugares.
Chegamos a Cali viajando uma noite inteira deitados em cima de sacos de milho, num caminhão coberto. Foi a única carona que pintou, em quatro dias de tentativas. No quarto dia, os suecos nos emprestaram dinheiro para comprarmos passagens de ônibus – acho que estavam fartos daqueles brasileiros famintos, e fizeram uma vaquinha para se verem livres de nós. Mas demos sorte, conseguimos uma carona e poupamos o dinheiro que nos deram.
Depois da fria (em todos os sentidos) Pasto, chegar numa cidade agitada, alegre, de belas mulheres morenas e extrovertidas nos deu uma nova energia. Passeamos pelas ruas e praças, cantei e ganhei alguns trocados, comemos, bebemos e recuperamos o nosso bom astral. Foi o meu primeiro contato com a salsa e com o modo de viver dos povos do Caribe.
No dia seguinte iniciamos a viagem para Bogotá, numa boa camionete. As janelas enormes permitiam a visão panorâmica do vale, com as plantações das encostas, as florestas, os vilarejos. Anoitecia quando chegamos a Armenia, cidade a meio caminho da capital colombiana. Fomos procurar um hotel barato – muito barato. Era um prédio de madeira, de dois andares, e o quarto nos pareceu excelente para passar uma noite. Eu estava cansado e não custei a pegar no sono. Acordei lá pelas 11 horas com o tum – tum–tum, ta-ta-ta de cúmbias e salsas, amplificados por mil alto-falantes. Olhei pela janela e vi que o povo estava todo na rua, bebendo e dançando. Era sábado, e ninguém parecia a fim de ir para casa.
Mesmo assim, tentamos dormir . Eu cochilava quando ouvi um barulho de porta abrindo e fechando. Alguns murmúrios em voz baixa e “ahhh, annnh, annnhhhh, amorcito, querido, anhhhh, anhhhh”. Enfim, aqueles sons emitidos por um casal transando. Menos de meia hora e slam, a porta fecha, fica só a cumbia, a salsa, as risadas e conversas da rua. Já é madrugada. Outra vez a porta se abre, fecha, “anhhh, anhh, anhhh”. Outro casal. Pouco depois outro, e outro. E a salsa, e a cúmbia. Não deu para dormir.
Pior: não dançamos a salsa e não trouxemos nenhuma colombiana para o quarto. Ficamos só ouvindo os gemidos, através das paredes de madeira. Anhhh, anhhhh, anhhhh....amorcito...
Levantamos de manhã mortos de sono.
Escrito por clovis heberle às 00h44
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MACARRÃO E BOLO DE CHOCOLATE
Os suecos de Pasto nos receberam bem, mas me impressionou a frieza deles - era a primeira vez que convivia com pessoas daquela região. São seis, quatro homens e duas mulheres, moram numa casa grande, de dois pisos, e, nas nossas primeiras conversas, deram a entender que desenvolvem na região um trabalho político, para um partido de esquerda, comunista. Nas horas e horas de papos com eles, não consegui saber ao certo a que grupo pertenciam e o que, exatamente, faziam ali. Com o meu saco de dormir, não precisava de cama nem de quarto – fiquei num corredor, e apesar do frio, pois Pasto fica nas montanhas, a 2.500 m de altitude, deu para pegar no sono. No dia seguinte, saímos para a luta – estávamos sem dinheiro, e precisamos ganhar algum pelo menos para um café da manhã, pois não havíamos jantado. Cantei, cantei, cantei, e nada de pingarem moedas ou notas na caixa do violão. Mudamos de praça, cantei mais e mais, e nada. Mudamos de bairro e nada. As pessoas passavam, ouviam e seguiam em frente. Passei o dia cantando, e as moedas que me deram não davam para pagar um prato de comida.
No fim da tarde, voltamos derrotados para a casa dos suecos - como são brancos, limpos e frios os nórdicos. Lá pelas tantas da noite começou algum movimento na cozinha. Pelo jeito iríamos, finalmente, ter um café/almoço/janta. Faminto como estava, cada segundo para a comida chegar à mesa valia por uma hora. Fui conferir: tinha macarrão na panela, e Birgitta, uma loira (claro) de olhos azuis(claro), baixinha para os padrões de seu país, picava cebola e alho poró.
Sem nada para fazer enquanto esperava o rango, peguei o violão e comecei a cantarolar uma música dos Beatles (Here Comes the Sun) com a letra adaptada às circunstâncias: here comes the food, here comes the food...
O macarrão à Birgitta é uma delícia, e facílímo de preparar. Ela cozinha a massa (fusili) e depois coloca, crus, cebola, alho poró e atum em lata. Espera alguns minutos para a os ingredientes interagirem e serve.
Dormi de barriga cheia, graças à Birgitta.
Na noite seguinte, ela revelou outro talento culinário: o bolo de chocolate à Maria Juana. Alguns amigos da casa apareceram para provar o bolo, preparado com algumas morrugas da boa maconha colombiana. Fomos avisados para não exagerar, pois o efeito é potencializado no cozimento. Realmente, um pedaço foi suficiente para nos deixar completamente chapados, atirados na sala, ouvindo Pink Floyd, Janis Joplin, Cat Stevens (me lembro de Mornin' has broken) e outros ídolos da nossa geração. Um dos guris repetiu e dose, e depois comeu outro pedaço. De madrugada, com taquicardia, foi levado ao hospital.
Escrito por clovis heberle às 00h22
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COLÔMBIA!!!!!!!
Ipiales, Colômbia. Desta vez não vou apenas comprar fumo, carimbar o passaporte e voltar para o Equador (é só atravessar uma ponte). Acompanhado pelo Pedro, tentarei conseguir em Bogotá um visto para os Estados Unidos. Tenho uma irmã que mora na Flórida há 10 anos, e não custa tentar convencer o pessoal da embaixada de que ela me dará casa, comida e uma passagem de volta. Se não der, podemos seguir a dica de um amigo mexicano e tentar embarcar no porto de Barranquila como tripulantes de um dos milhares de barcos que cruzam o Caribe.
Daqui iremos a Pasto, uma cidade de porte médio, a maior do sudoeste do país, onde ficaremos um dia ou dois na casa de um grupo de suecos que nos indicaram. De lá, sempre cantando nas ruas para pagar as despesas, continuaremos para Cáli e depois para a capital colombiana. A Piper colocou as cartas do tarô para nós, e elas foram boas. Aventuras, amores, surpresas. Não falou em grana, mas... tenho meu violão.
Escrito por clovis heberle às 23h35
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Piper, Dedeco
  
PIPER E DEDECO, EM BAÑOS.
Escrito por clovis heberle às 00h13
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4th of july, 1972
Susan Piper Johnson, a Piper, morava em Otavalo. Avançada, sabia tudo de tarô, de I Ching, de magia. Era jovem, alta, bonita, inteligentíssima, americana. A casa dela era toda transada. Íamos lá à noite, nos sentávamos no chão à luz de velas. Fumávamos, conversávamos baixinho, num clima de encantamento. Tudo era novo para mim. Calado, bebia cada palavra.
Piper decidiu comemorar em grande estilo, com seus amigos, a data nacional dos Estados Unidos. Fez reservas para seus convidados no hotel Americano, de Banõs, onde costumava passar temporadas. Estava namorando o Dedeco, e nos convidou.
O hotel, de três andares, era freqüentado só por estrangeiros. Apesar de ser muito simples, cobrava diárias caras demais para os equatorianos, que preferiam ficar em lugares mais confortáveis e baratos. Nos registramos, e o dono nos levou ao último andar, todo ele reservado para os convidados que não podiam pagar diárias. Era um salão com dezenas de camas, sem divisórias. Praticamente todo o hotel estava ocupado. A cozinha do hotel foi franqueada para os hóspedes, que nela preparavam as refeições.
A festa durou três dias, vinte e quatro horas por dia. Não havia horário para dormir ou acordar. Comíamos, bebíamos, rolava de tudo. Depois daquela comemoração, o 4th of July passou a ter um significado diferente para mim. Nada a ver com a independência americana...
Escrito por clovis heberle às 00h08
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QUE PORRE!
No domingo de tarde, Pablo vem nos convidar para participar de uma festa na casa dele, a uma quadra da nossa. Seria grosseria não aceitar o convite – apesar de sermos, para os índios da vizinhança, um bando de gringos loucos, éramos tratados com cortesia. Até nos ensinaram a tecer, num tear instalado junto à mesa da sala de onde saíam faixas tecidas em lã. Ensinaram como tingem a lã e preparam os fios para serem transformados em ponchos, técnica herdada dos antepassados.
Nós o seguimos até um prédio grande, cercado de muros, onde vivem várias famílias. A festa havia começado de manhã, e os homens estavam bêbados. Aceitamos os copinhos de cachaça anizada que nos ofereceram e ficamos bebericando, em pé, mas um de nossos anfitriões ordenou: bebam. Bebemos um gole. Ele repetiu: bebam, tudo, e engolimos a dose num gole só. Encheram os copinhos e novamente a ordem para bebermos. Bebemos. Incontáveis copinhos depois, estávamos borrachos como eles. Me lembro de ter cantado, dançado, dado gargalhadas de piadas em quíchua que eu não compreendia.
Passei dias me recuperando da ressaca. Foi o pior porre do mundo.
Escrito por clovis heberle às 23h35
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QUE LINDAS SON LAS OTAVALEÑAS
   
As otavalenhas têm uma beleza única entre todas as tribos que conheci na Bolívia, no Peru e no próprio Equador. Geralmente esguias, pele morena, maçãs do rosto destacadas, são alegres, seguras de si e vaidosas, com suas crianças amarradas às costas, colares, brincos e pulseiras coloridos e vestidos compridos. Como são lindas as otavalenhas.
Escrito por clovis heberle às 00h32
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SETE DIAS DE FESTA
24/6/72
Hoje, sábado, é dia de São João. Os índios festejam a semana inteira, até o dia de São Pedro e São Paulo. Não trabalham, só comem, bebem, cantam e dançam. Acordei cedinho, como sempre, e fui dar uma olhada no mercado, meio encolhido de frio, nariz vermelho, andando devagar. Me encanta caminhar entre o povo, cumprimentar todo mundo, olhar as pessoas e deixar que me olhem. Dar uma olhada nas transações – todo mundo compra, vende ou troca alguma coisa -, ficar olhando o espetáculo do vendedor de remédios com a cobra Catarina. Perto dali, um preto pretíssimo maneja o boneco Mário Moreno, que dança uma animada cúmbia, para pouco depois oferecer a sua pomada milagrosa, boa para qualquer dor, corte, até câncer. Por “un sucrito no más...”
Perdi todas as moedas do meu bolso na roleta instalada na rua. Claro que ela está viciada, mas não há para quem reclamar, pois a balança pública, colocada pela prefeitura no meio do mercado, só serve para tirar dúvidas quanto ao pesos dos produtos. Manuseada por um fiscal da prefeitura, há dezenas de anos a balança desmascara vendedores desonestos.
Alheios ao burburinho, dois índios tocam suas quenas (flautas feitas artesanalmente de bambu) em dueto. Quando eu chego perto eles páram de tocar e perguntam se eu quero comprar uma quena. Eles mesmos fabricam, e tocam para mostrar que são perfeitamente afinadas. Digo que não estou interessado em comprar, mas em ouví-los tocar. O dueto recomeça, e eu fico alí, saboreando as harmonias simples e delicadas da música andina, em que predominam os tons menores.
Caminho até a área montada para a festa, com dezenas de barracas onde, apesar de ser o início da manhã, já se come e se bebe. Os índios não têm o costume de fazer refeições matinais leves, como os espanhóis.Tomam sopas quentes, com batatas, milho, verduras e carne de porco para espantar o frio e ter energia para trabalhar. Vindos de toda a região, eles já são milhares a percorrer os espaços entre as barracas. Caminham com passos curtos, gingando o corpo. Grupos de mascarados cantam e dançam ao som de flautas e violões, visivelmente bêbados de cachaça ou de chicha, uma espécie de cerveja primitiva produzida artesanalmente pela fermentação do milho em tonéis.
Volto para casa e fico na janela vendo as crianças jogando sapata na rua. Uma mulher apanha do suposto marido, completamente bêbado, sem reclamar. Em seguida ele se deita no chão contra a parede de uma casa e cai no sono. A mulher senta ao lado dele, tira um rolo de fio de lã e começa a tecer. Vai esperar pacientemente até o porre do marido passar e levá-lo para casa. No dia seguinte provavelmente será ela a se emborrachar e ele a aguentar calado. Há um princípio que diz: “Quando índio chuma (se embebeda), índia no chuma. Quando índia chuma, índio no chuma”. As mulheres pegam no pesado, e têm o mesmo direito de beber até cair que os homens.
Escrito por clovis heberle às 00h28
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